terça-feira, junho 24, 2014

CONTO

O CÉU, O MISTÉRIO E A LUZ NOS OLHOS DO MEU PAI

            Rafael Rubens

Meu pai que conta. E olhe que ele nunca foi de acreditar nessas coisas. Mas diz que foi algo tão espetacular que na hora não sabia se estava arrepiado de pavor ou de êxtase.
            Eram os anos 60. Naquele tempo, do alto dos seus, sei lá, 25, 30 anos, meu pai estava em pleno vigor da juventude, e como todos de sua faixa etária naquele pedaço de sertão, também dedicava satisfação e gosto pelas farinhadas.
            As farinhadas eram como se chamavam os serões que os trabalhadores da Casa de Farinha faziam para industrializar mandioca. Ali se fazia goma, beju, farinha. E, principalmente, faziam-se também as oportunidades para que os jovens da região se encontrassem. Assim, muitos namoros e casamentos tinham a substância preparada por lá. Entre beijos e bejus, os dias de farinhada eram, de longe, a parte mais animada do lugar...
            Meu pai tinha chegado de São Paulo havia poucos dias. Trazia algum dinheiro no bolso e umas vontades fervilhando na cabeça. Fazia uns 5 anos que tinha ido embora pra São Paulo, mas todo mundo sabia que era só questão de tempo e talvez de algumas chuvadas de verão mais convincentes para que ele voltasse de vez. É o paradigma de sempre. Fugindo da seca, aquela mesma desenhada em versos tristes por Patativa e musicada por Luiz em "A triste partida", o nordestino parte pra São Paulo em busca de emprego e alguma possibilidade de concretizar sonhos de vida. Lá não encontra nada mais do que exploração de mão de obra, mas se submete. Meu pai, como tantos, também se submetera. Agora voltava com um punhado de vivências e histórias no bisaco. A saudade beliscando o fez voltar, como a gente sempre quer voltar a dormir para sonhar de novo o mesmo sonho. Por isso a vontade de rever as farinhadas, reencontrar os amigos, rever as moças da região.
            Saiu de casa mais cedo, com a peixeira no quarto e o passo leve. Devia ser pouco mais de sete da noite, pois fazia pouco tempo que A Voz do Brasil havia começado. Levou consigo também uma lanterninha vermelha rayovac pra ir alumiando o caminho, porque a noite era de lua nova e já tava escuro de meter dedo no olho... Pegou a vereda de sempre, rumando pela Caatinga Alta e o Córrego dos gatos. Ninguém gostava muito de andar por aquela vereda à noite, dizia-se que havia muitas cascavéis por ali. Também se falava em medo de assombração, pois fora por ali que finado Eduardo havia sido assassinado.
            Meu pai não ligava pra isso. Escolheu ir por ali porque era mais perto e ele queria chegar logo. Não ia pensando em nada, pelo menos não diretamente. Foi quando aconteceu. Acendeu-se uma luz tão forte e tão brilhante que meu pai quase fica cego na hora. Dava para ver todas as pedrinhas debaixo das faveleiras. Era como se a noite de repente brincasse de dia... As sombras desenhadas dos galhos dançavam no chão, o chão branquinho, branquinho, igual a quando reflete a timidez poética da lua. Meu pai ficou sem reação na hora. Aí tudo apagou-se de novo.
            Na hora, meu pai compreendeu tudo: na certa era Manoelzinho Evaristo, um amigo seu da região, com aquela brincadeira besta de acender a lanterna na cara da gente...
            - Diga lá, Manoelzinho! Isso é tudo saudade, pra já vir me encontrar aqui?
            Não houve resposta nenhuma, a não ser pela luz que se acendeu novamente, agora mais fraca e mais longe, por cima de uns galhos de mofumbo mortos. Meu pai tentou pegar um atalho por cima de um lajedo para ver se acompanhava, mas cada vez mais o facho de luz acendia mais longe e mais longe, como se o desafiasse.
            Depois a luz foi ficando mais alta, mais rápida, até que parou por uns instantes no céu, estática e terrível, como se quisesse evidenciar suas intenções de desenhar o inexplicável. Meu pai não conseguia mais murmurar absolutamente nada, ficou totalmente entregue, travado, presos nas amarras do próprio silêncio, com aquela sensação de ter engolido pedras quentes.
            A única coisa a quebrar o silêncio voraz daquele momento foi a revoada de tetéus em algazarra e os pios de cancão que, também assombrados com a luz, gritavam como se tivessem acuado cobra.
            Meu pai ficou olhando vidrado, sentindo as mãos frias e suadas. A luz parecia ter adquirido uma silhueta oval, estranha, completamente diferente de tudo que estivesse ao alcance da tecnologia humana. Quando meu pai menos esperava, ela fez um movimento final, dando um giro rasante e rápido por cima dos marmeleiros até finalmente desaparecer por detrás do serrote onde fora assassinado o finado Eduardo.
            Depois, mais nada. Só o escuro que voltou com mais força, só os pássaros que se calaram e voltaram a pousar nos galhos secos, só a veredinha branca quase imperceptível ao olhar, que demora a perceber os detalhes após uma grande exposição de luz.
            E meu pai recomeçou o seu percurso, entre assustado e perplexo, com aquele incidente da cabeça, deixando que o ventinho da boca da noite enxugasse as grossas gotas de suor que lhe desciam na testa. A estrela dalva brilhava no poente, convidando o olhar e convertendo em poesia o ocaso do sertão. Ainda sentia o coração bater descompassado, mas o silenciozinho da noite, cortado apenas pelos cantos da corujinha papo dágua ao longe, lhe confessava que tudo estava calmo novamente e o sertão voltava a ventilar aquele lirismo que sempre rabisca retalhos de saudade na memória.


28 de junho de 2013

4 comentários:

Abelhas do Sabugi - PB disse...

Perfeito!

SANTANA MEDEIROS disse...

Amei! Conheço bem essa história. Parabéns Rafael.

Rodrigo Vieira disse...

Magnífico

Anônimo disse...

Gostei da História