quinta-feira, outubro 03, 2013

MENINOS DO SERTÃO

Rafael Rubens


         Nascer e crescer no sertão possui uma metafísica diferente de qualquer outro lugar do mundo. Porque o sertão é enormemente mágico, tão desafiador que parece que absorve tudo na poeira, mesmo as abstrações da imaginação de uma criança. Eu fui um desses miguilins de pele queimada no mormaço sertanejo e pensamento de além-horizonte. Adorava ficar observando os galhos de jurema que se soerguiam e se entrançavam no horizonte como estivessem se abraçando. Para mim era como se fossem pessoas que dançavam no oscilar da música do vento, e meu olhar viajava... 
         Nunca possuí brinquedos caros, jamais tive um velocípede, uma bicicleta que fosse só minha ou um videogame. Meu irmão e eu improvisávamos com o que o sertão nos oferecia gratuitamente, como quengas de coco ou florações de pereiro que, ao secarem, pareciam filhotes de guiné de asas abertas... Meu irmão tinha um lajedo de estimação. Eu achava fantástico, porque ele dizia que aquele lugar, era na verdade, a morada de sua sombra, que ele denominara de Turique. Por isso o lajedo chamava-se (isso mesmo, chamava-se) Serrote de Turique.
         Minha casa ficava perto de um morro chamado Serrote Branco. Por algum tempo funcionou uma mina de barita por lá, mas eu era muito pequeno na época e não lembro direito do período das extrações de pedra. Só lembro vagamente de uns mineiros que passavam lá em casa depois do trabalho para beber água e meu pai sempre ficava conversando com eles. "Meu Bom" e "João Conrado" tinham aquela aura de herói meio quixotesco que só o trabalho de sol quente do sertão dá. Mas o que me chamava a atenção de verdade eram as enormes banquetas que ficaram por lá e que eu morria de medo de passar por perto. Mas amava me aventurar pelas outras partes do morro, passar pelo descampado que minha mãe chamava de "rasgo", que fora o lugar onde uma antiga barragem da família arrombara nos anos 80. Gostava de subir até o topo do Serrote Branco, porque a vista de lá era panorâmica e incrível, e era boa a sensação de tocar nas pedras brancas que ficavam por lá e jamais esquentavam como que desafiando o sol.  O sertão é o indenominável.
         Sempre achei a noite do sertão de uma beleza extraordinária, por mais que seja chover no molhado afirmar isso após Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco terem escrito "Luar do sertão". A lua branca, o canto dos tetéus e da mãe-da-lua, o grito revoltado dos caborés que rasgava a calma da boca da noite. O friinho do sereno que só o sertão possui. São sensações desenhadas na lembrança que jamais deixam de serem revisitadas. Confesso que de vez em quando bate uma saudade que faz o coração ficar pequeno, pequeno como eu me sentia quando caminhava nas veredas da "Caatinga Alta", do "Córrego dos Gatos" ou dos "Espinheiros", alguns dos lugares que habitavam minha infância e no meu entendimento eram do tamanho do mundo todo.
         Meu melhor amigo se chamava Sérgio. Serjão. Era um menino bruto, meio doido, atrapalhado e assombrado por natureza. Serjão era mais forte e menos medroso do que eu. Morava por trás do Serrote Branco. Às vezes vinha à minha casa ou eu ia à casa dele pra jogar bola no barro vermelho ou atirar de baleeira. Por qualquer coisa ele pegava ar e era bom sair de perto. Nós estudamos juntos desde a primeira série. Uma vez um menino maior começou a insultá-lo na volta da escola e Serjão calou-se. Calado ficou e começou a apanhar pedras e encher a bolsa. Daí a pouco deu o seu golpe fatal e calculista: arremessou uma pedra com toda a força que pegou o braço do menino e quase quebrou. Enquanto o menino chorava de dor, Serjão continuou calado enchendo a bolsa com pedras ainda maiores... Mas sem dúvida sua maior vitória foi no dia em que deu uma surra na própria bicicleta por ter sofrido uma queda no caminho de casa. Sem se importar com a dor que ficava nos pés, encheu de chutes a bicicleta, que, claro, fora a culpada pelo tombo no pedregulho quente... Hoje em dia, de vez em quando Serjão e eu nos encontramos e rimos juntos das aventuras e desventuras de nossas infâncias no sertão.
         Quase vinte anos depois, eu lembro dessas peripécias percebendo que o tempo está passando tão rápido e nossas infâncias ficaram para trás. Mas o sertão é o inesquecível, é a tatuagem inapagável na essência do ser. E ele continua vivo nos olhares de cada homem que teve seus primeiros dias rabiscados nas molduras das veredas sertanejas. Apesar da vida agreste, da agressão das estiagens e muitas vezes de muitas infâncias roubadas pela necessidade do trabalho precoce,  só os meninos do sertão é que compreendem o sentido de catar estrelas e desenhar  a própria solidão, como dizem os versos da canção de Zé Ramalho. E eu sou apenas tão pretensiosamente mais um desses, cuja infância ainda viva na lembrança tenta verbalizar com nostalgia a vida de menino perdido no próprio sonho e envolvido na poeira do sertão de outrora.

3 comentários:

Paulo Romero. Abelhas Nativas disse...

Meu amigo Rafael,que maravilha de postagem!!
Essa foi uma das melhores postagens que já li...Realidade de qualquer menino nascido nos sertões.

Eu me reconheci em todas as partes dessa postagem,pois tive essa mesma infância,lá no meu "cariri paraibano" e essa postagem me levou de volta ao meu passado,onde vivi os melhores dias de minha vida...

Obrigado por me possibilitar reviver,esses anos de grande alegria.

Eu tomei conhecimento do blog,através de meu amigo Issac Soares,de Várzea,PB...E achei simplesmente fascinante e inspirados.

Abração!
Paulo Romero.
Meliponário Braz.

Fernanda M. Figueirêdo disse...

Confesso que quando fui intimada a comentar a postagem, caso gostasse, me senti meio perdida (antes de ver tal proeza, claro!). Pensei comigo:
- Ora, não se é todo dia que se anda inspirada para comentar grandes textos. Mas sobre esse eu realmente tenho que falar.
Primeiro para contestar o título. Eu diria "Meninos E MENINAS do Sertão"... risos. Como é bom se sentir parte de sua descrição emocionada desses recantos mágicos. Só um sertanejo (ou sertaneja) é capaz de sentir esse tipo de arrepio e palpitar apressado que acabei de sentir ao ler fatos tão familiares... é como correr no "pingo do meio dia" atrás de um pote de ouro no fim do arco-íris. O ouro seria o Sertão que ainda mora dentro da gente, o caminho ninguém sabe onde vai dar, mas só se espera o pote de ouro e o regresso de tempos que talvez não voltem.
Adorei ler sobre as peripécias do meu primo Sérgio... kkkkkkkk - essa minha família como sempre desajuizada. Eu gosto disso! De gente que não se prende a normalidades.
E é isso, acho que honrei sua ordem de comentar (caso gostasse). Eu gostei! ;)

Epitácio Germano disse...

Fantástico texto amigo Rafael !