domingo, setembro 02, 2012



OS DESINSTANTES DA MINHA RUA

Rafael Rubens


A rua é longa e aparentemente desprovida daquele lirismo que desenha a saudade porventura contida nas palavras do poeta que descreve as simetrias urbanas ou do transeunte que pára para dar uma informação a alguém apressado e perdido e simpaticamente diz muito mais do que apenas informações objetivas de localização geográfica.
Aqui, em geral, não passam bêbados cantarolando algum idílio à madrugada, não se acendem fogueiras na época junina, não há confraternização entre vizinhos, tampouco se ouvem cantos de galos anunciando o nascer de mais um dia. São os contornos peculiares de uma rua quase que completamente comercial. Nos finais de semana, como é de se esperar, ela fica praticamente deserta, a não ser pelos veículos que transitam velozmente pelas vias urbanas e atravessam o silêncio e a calmaria do panorama semi-adormecido e quase solitário que se configura.
            O que dizer de uma rua, que entre os pontos de referência mais conhecidos estão um prédio condenado ali mais acima, cuja queda iminente provocaria um espetáculo dantesco e terrível aqui em Campina Grande, um albergue de presidiários impenetravelmente amarelo um pouco mais abaixo e um cemitério no final, como que sugerindo uma metáfora que desafia as leis da vida e apresenta os grilhões da morte?
Como toda rua, a minha também emoldura seu pedaço de mundo, pincelando detalhes da existência porventura perdidos nos vacilos do olhar humano e nos labirintos do tempo, bem como servindo de cenário descolorido aos episódios banais da vida diária. Gosto particularmente de observar sua vista noturna, cuja solidão é ainda mais enfática e evidenciada pelas circunstâncias da cidade que está finalmente se recolhendo. Sempre quis imaginar que as fileiras de luzes nos postes ficam conversando para enganar a escuridão e bisbillhotando acerca das lendas urbanas.
Aqui perto de casa há uma imensa bandeira nacional, que fica hasteada no topo de um prédio comercial de material construção. Já me assustei vez ou outra ao acordar e ouvir o barulho que ela faz quando o vento bate mais forte e ela tremula agressivamente, rasgando a tranqüilidade orvalhada da noite. Gosto de observar sua força e sua altivez, que desafiam os efeitos das chuvas e a força dos ventos. E gosto também de observar as esquinas que esboçam o design da solidão inanimada da rua onde moro. Por isso muito frequentemente chego à varanda do meu apartamento para lançar um olhar descompromissado, e a concebo como a varanda do mundo, na qual eu posso vislumbrar toda a solidão que marca os seres humanos nas relações interpessoais e na vida.
            Agora há pouco mesmo chamou minha atenção um senhor que caminhava vagarosamente com um saco de tralha nas costas e as luzes o acompanhavam como se a rua fosse seu palco particular. Segui observando até ele sumir na última esquina que minha vista alcançava. Ele se foi e a rua ficou. Como uma testemunha pálida, estática, e certamente à espera de uma nova cena cotidiana que provavelmente também se perderá no cubo implacável do tempo e na lente já cansadamente obliterada dos desinstantes fotografados pelo olhar. 

2 comentários:

Kleber Nobre disse...

Eh Isso aí Rafael Rubens... A poesia é a alma colocada a serviço do eu-nós,
sentimentalizando a solidão ou a boa companhia, o silencio ou o barulho internos... Que bom que a arte salva as angústias de quem escreve e de quem vê. Parabéns, espero que cada vez mais motivos e motivações apareçam e não sejas/sejamos vencidos pelo cansaço da falta de apoio e espaço. Vamos à luta. Que bom que a poesia é tão grande que pode-se extrair não só de ambientes naturais "bem mais comuns" do que de uma simples varanda de apartamento de cidade grande. Valeuuu!

Rafael Rubens disse...

Nobre Kleber! Fico contente demais de ver o registro de sua leitura por aqui. De fato um sopro poético torna o mundo mais bonito e bem mais habitável. Valeu você! Abração