quarta-feira, setembro 05, 2012


O SONO DESVELADO

Rafael Rubens

Embaixo da marquise de um dos prédios da Rua Siqueira Campos, aqui no centro de Campina Grande, ele dormia. Não dá pra dizer que dormia o sono dos justos, porque a justiça, no seu caso, é um conceito esquecido e relegado ao ostracismo absoluto, jogado na sarjeta das circunstâncias sociais. Como que deitado eternamente em berço nada esplêndido, não ouvia os acordes dissonantes e peculiares da vida noturna da cidade grande nem percebia os relances factuais que se perpassavam no derredor de sua própria miséria. Era um mendigo, apenas mais um indigente contido nas estatísticas desumanas da humanidade e queria simplesmente dormir, sem nenhuma pressa ou necessidade de acordar no dia seguinte.
Logo ao seu lado uma soparia aberta recebia clientes felizes que levavam alguma vontade no estômago e algum dinheiro no bolso para trocar por conchas de canja ou sopa de sabores vários. A maioria vinha do trabalho, com expressão casada, mas também tranqüila, de consciência limpa e olhar blindado ante as alteridades quase invisíveis que dormem anestesiadas ali bem perto.
No cardápio da soparia, além dos mais diversos e nem sempre tão tomáveis tipos de sopa, constava também a propaganda eleitoral gratuita que passava na TV vendendo bocejos e temperando argumentos vazios de época de campanha. Nela, os seis candidatos a prefeito da cidade, todos muito simpáticos e contagiosamente felizes, dissertavam sobre as transformações sociais que colocariam em prática caso fossem eleitos e reforçavam seus sólidos compromissos para com todas as esferas da sociedade, sem nenhuma distinção de classe nem acepção de pessoa.
Pouquíssimas pessoas prestavam atenção nas falas ensaiadas dos candidatos que continuavam televisando suas boas intenções. Quase todos ali eram eleitores, quiçá cidadãos conscientes e abnegados, mas optavam por não olhar para a televisão, talvez por já estarem acostumados com a inconsistência das mesmas falácias ali veiculadas, talvez por não se interessarem por este assunto sonolento, maçante e banal, que é a política, enquanto arte ou ciência que, ao menos no palco da teoria, visa promover o bem estar coletivo de todos que vivem em sociedade.
No entanto, enquanto as pessoas não manifestavam suas atenções ou sensibilidades em relação às questões de si e do outro, a vida, por si, mesma, encarregava-se de escancarar as engrenagens de sua complexa conjuntura social. Há apenas alguns metros dali aquele cidadão anônimo permanecia imóvel sob seus lençóis um tanto sujos e surrados. Mas agora tinha companhia. Seis cachorros, no êxtase do cio, faziam algazarra, roçando-se, mordendo-se simultaneamente em pleno acasalamento, e o faziam sem nenhuma inibição em cima do corpo fragilizado e violável daquele homem, como se ali não existisse um ser humano, mas apenas um leito para  copular.
O mendigo, contudo não esboçou a menor das reações. É provável que não mais dormisse. Talvez estivesse dopado ou faminto e se movimentar provocasse cansaço. Por isso preferira a resistência passiva e o silêncio total como forma de suportar aquela situação humilhante e depreciativa. A cena, por si só, deveria comover, revoltar, pelo menos provocar alguma reflexão acerca das cruéis normalidades humanas vivenciadas nas agruras do cotidiano. Mas não.  Ninguém reparou na dimensão do instante machucado que debaixo daquela marquise marcava as cicatrizes mal saradas da vida real, e o episódio também passou despercebidamente aos olhares obliterados pelas viseiras de plantão, como se quisesse acabar de desenhar os contornos irregulares da melancolia da noite.

2 comentários:

raphael santos disse...

Sua grande sensibilidade com as coisas que se fazem presente no nosso cotidiano traduziu uma grande percepção sobre a situação da sociedade brasileira, inclusive, de nossa cidade. Parabéns e não desista de seus pensamentos.

Rafael Rubens disse...

Fico contente com sua leitura, caro Raphael. Acho que as crônicas tem este poder de ver além das viseiras do imponderável para escancarar as janelas de nossa realidade crua. Abraços!