quinta-feira, setembro 20, 2012


A COR DOS SONS DO CENTRO DA CIDADE

Rafael Rubens

Sempre me pego prestando atenção aos barulhos que, por tantas vezes se repetirem, já soam peculiares ao ouvido do cidadão mais atento e já derramam vida nos instantes que ora vibram, ora esmorecem no centro da cidade.
Particularmente alguns casos que rompem a membrana nem sempre calma dos silêncios paqueram mais facilmente a parte mais imponderável de nossas curiosidades já quase de todo sequestradas pela rotina urbanamente barulhenta.
É difícil não perceber aquele homem com sotaque carioca que vende flanelas e sai costurando caminhos pelos postos comerciais do centro sempre repetindo o mesmo simpático jargão: “Aí, legal! Olha a flanela!” A verdade é que pouquíssimas pessoas olham para as suas flanelas que estão à venda, mas ele prossegue seu percurso carregando a mesma disposição e convertendo nas mesmas palavras de todos os dias a alegria de quem quer aveludar o mundo de suas desatenções e emprestar um sorriso espirituoso ao instante desenhado pelos improvisos da vida diária.
Também não há como desconsiderar aquele senhor de meia idade que sai vendendo água de coco e proliferando o seu murmúrio particular: “Quem vai querer uma aguinha de coco bem geladinha?” Quando ouvimos sua propaganda sonora e singular não é preciso consultar o relógio para constatar que estamos atravessando aquele panorama amarelado que marca a passagem da manhã para o inicio da tarde.
Mas definitivamente nada se compara à voz inconfundível do vendedor de cocadas que sempre passa pela metade do dia, quando o sol está mais a pino. Carregando suas cocadas numa caixinha artesanal que leva ao ombro, o homem de seus quarenta e poucos anos, queimado de sol e que sempre traja polidamente a mesma roupa social deve ter noção de que sua aparência não se faz reconhecer tanto quanto as palavras emitidas e repetidas todos os dias propagandeando seu produto.
Demorei para entender que ele não dizia “Quem quer cocada?” como achava antes ou “Quem quer comprar doce?” como asseguravam e teimavam alguns amigos. E a dúvida só foi tirada no dia em que eu quis pagar menos por uma de suas cocadas do que por minha própria curiosidade. Ele foi solícito, simpático, revelou que na verdade dizia “Olha a cocada!”, mas que dava uma puxadinha silábica no final da palavra para que o chamado comercial ficasse mais atraente. Hoje ainda paro para ouvir o vendedor de cocadas, quando ele vem descendo pela rua e comercializando suas guloseimas pelo boca a boca. Já sei que ele diz “Olha cocada!”, a curiosidade passou, mas o eco do mesmo encantamento prevalece como a embalar a alma das ruas e esquinas do centro da cidade sempre pela hora do almoço.
O centro da cidade está a cada dia mais barulhento. E eu sei que boa parte do barulho pode ser entendida e compreendida como desagradável poluição sonora, mas também estou certo de que cada som tem a sua cor. E os barulhos perfazem-se, multiplicam-se na composição nem sempre tão poética da rotina, este reprisar mecânico de momentos que às vezes nos deixa cegos, surdos ou sem disposição pra ser protagonista no teatro do mundo. São os sons da vida, sempre desafinando os acordes de sua própria melodia na constância calma ou atribulada da existência e acontecendo sem aviso para seguir no curso sem ensaio das engrenagens da máquina-mundo.

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