domingo, agosto 05, 2012


VERMELHOS, COMO TEUS SONHOS ADOLESCENTES

 Rafael Rubens

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Hoje eu te presentearia com o perfume e a beleza de uma flor vermelha, fosse uma rosa, uma orquídea ou um ramo de acácias que enfeitasse os teus cabelos, como se isso bastasse como um motivo despretensioso e afável para te fazer sorrir. Dedicaria a ti o meu soneto mais perfeito, concebido na mimesis de minhas abstrações menos parnasianas, e ele seria perfeito exatamente por não conter nenhuma noção de métrica, rimas ricas ou palavras raras, mas por apenas descrever o teu sorriso tímido, adolescente e por isso mesmo tão namorável quanto às tardes de domingo que douram teus sonhos joviais. Queria te dizer qualquer espontaneidade besta motivado pelo único intuito de fazer com que tuas faces se ruborizassem para depois dizer o quanto ficas linda assim, desconcertada e embebida na despoesia de minhas palavras inoportunas.
Vermelhamente. Como o ardor das paixões proibidas e a poesia concreta dos sonhos secretos que só confessamos para o espelho atrevido dos nossos olhares de manhã seguinte. Eu amaria vermelhamente o instante efêmero e intenso em que teus olhos finalmente pousassem nos meus e segredassem as mentiras mais profundas e sinceras em que o poeta sequer pensou em seus momentos mais frutíferos.
Confessaria minhas melhores lembranças da infância por acreditar na filosofia machadiana que “o menino é o pai do homem” e assim minha infância buscaria flores campestres para presentear a tua adolescência com um sorriso de final de tarde e alguma partícula de romantismo mal-disfarçado. Presentearia, enfim, tuas melhores expectativas com um pôr-do-sol que emoldurasse a fotografia de tuas ilusões femininas ainda não completamente despedaçadas.
Diria que o lusco-fusco tem um mistério mais poético porque condensa em si a alma esperançada dos amantes que desenham no ocaso os seus suspiros e o lirismo de suas sensibilidades humanas e aguçadas. Degustaria teus silêncios com o mesmo prazer e o mesmo lampejo no olhar de quem acaba de sentir na boca o sabor inconfundível de vinho tinto enquanto Elvis desliza na vitrola a melodia suave de “Suspicious Minds”. E enganaria o relógio do tempo te contando alguma história, engraçada de tão tola, convincente de tão mal contada, para que não percebesses a noite chegar, só para que eu te confessasse que a lua dos teus olhos é ainda mais bela que o luar que inebria e colore o nosso céu de princípios de agosto.


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