sexta-feira, agosto 10, 2012


UM GATO CHAMADO CHATEAUBRIAND

Rafael Rubens

Chateaubriand. Assim que se chamava. Eu o batizei assim porque achava esse nome forte, sonoro e próprio para se colocar em um gato. Chateaubriand foi pouco a pouco conquistando o carinho de todos que o conheciam ou conviviam à sua volta. Um felino inesquecível, não pela esperteza, não pela beleza, tampouco pelo nível de afetividade para com os humanos carentes de carinho animal.
Ele foi um animalzinho nascido e abandonado no armazém de nossa casa há uns 10 anos, quando meus pais moravam no sítio Serrote Preto, a 9 quilômetros de Várzea, nossa cidade natal. Minha mãe compadeceu-se com o gatinho bebê miando de fome e frio e resolveu pegá-lo para que não morresse no relento. Dava-lhe colherinhas de leite e à noite fazia-o dormir entre panos aquecidos dentro de uma caixa de papelão.
Todas as manhãs ia verificar pra ver se o gatinho não estava morto, e ao primeiro toque ele despertava com aquela alegria jovial miando e ronronando como só os filhotes de gato o fazem. Uma coisa que poucos sabem é que os gatos, quando filhotes, precisam de um estímulo da mãe na área genital para poder urinar. As mães lambem e eles urinam, caso não exista esse estímulo eles podem privar-se e chegar a morrer. A gente  achava aquilo meio estranho, tão visceral, tão biológico. Mas precisava ser feito. Era só friccionar a mão por trás da perna do gatinho e o bichinho, aliviando-se, mijava que era uma beleza...
Conforme foi crescendo percebemos que Chateaubriand não enxergava. Ele batia nas paredes, nos móveis. E era agressivo, arredio, estranhava pessoas de fora do convívio da casa. Por isso todo mundo detestava ele, e as pessoas não gostavam de ir lá em casa, porque tinham medo de serem atacados pelo gato cego...  Mas ao mesmo tempo Chateaubriand tinha carisma, personalidade forte. Gostava de freqüentar as folias, apesar de meio fracassado nos namoros, porque levava desvantagem com a cegueira. Apanhava dos outros gatos maiores, mas não se rendia e quando se restabelecia lá ia novamente procurar novas aventuras. Também tinha um hábito estranho de fazer amor com um pano que havia lá na cozinha. Agarrava-se com o pano, mordia-o, possuía-o e depois caía ao seu lado provavelmente saciado.

Quando meus pais foram morar na cidade, o maior medo era que Chateaubriand fosse logo atropelado e morresse de uma forma dolorida e triste.  Mas não foi isso que aconteceu. Primeiro ele deu um trabalhinho fugindo de casa. Já era dado por morto quando reapareceu um dia de madrugada, magro, todo arranhado, mas bem vivo. Tornou-se um mascote comunitário, todo mundo na cidade já o conhecia e gostava dele. Os motoristas na rua paravam os carros para não o atropelarem. Por vezes ele se perdeu na cidade e eu fui buscá-lo de moto, ao que ele rapidamente se mostrou adaptado; já ficava quietinho no tanque da moto e seguia o percurso inteiro praticamente sem se mexer!
Sua história chegou ao fim em 2009, quando o nosso felino, vitimado por um tumor que apareceu por baixo da mandíbula, tornou-se doente e morrinhento. Não passeava mais, pouco comia e passou a vomitar frequentemente. Foi morrendo aos poucos, enfurnando-se, escondendo-se, como que quisesse se esconder do próprio sofrimento físico. Minha mãe inda tentou salvá-lo dando-lhe uns medicamentos e receitas próprias para mal de gato, como chás e combinações de ervas. Mas não foi suficiente.
 Em mais uma manhã serena ele se aconchegou pela última vez numa caixa de papelão em que adorava dormir. E não acordou mais. Morreu dormindo, no silêncio e na solidão, anestesiado para sempre da dor, e despedido da vida, que fora curta, efêmera, e de verdade nunca apresentada aos seus olhos felinos e adestrados pela sofrência do existir.

2 comentários:

Poetisa da Paz disse...

Seu texto meu comoveu, tenho paixão por gatos. Muito bom! Se puder, conheça meus blog. Será um prazer ter mais um conterrâneo como seguidor.
Abçs!

Rafael Rubens disse...

Agradeço sua leitura, querida. O aborda fatos completamente rais. Visitarei seu blog sim, com prazer!