domingo, agosto 19, 2012


O PREÇO DA BELEZA DA TARDE

Rafael Rubens

Às vezes sou inclinado a pensar que uma chuva no início do dia é bom para que percebamos a beleza natural das coisas quando  o sol finalmente renasce. A chuva é como a carícia matinal que provoca o sorriso vespertino na superfície inabitável do mundo. E o sol, ressurgindo no soslaio poético das intermináveis horas pluviais, é o presente que aquece o mistério da vida e vivifica o espírito das coisas inanimadas.
Quisera eu o dom de domar a calma dos ventos tempestuosos e a enérgica fúria das brisas de verão, apenas para desenhar com algumas modestas palavras o intervalo exato em que o nublado chuvoso faz-se o dourado de sol que brinca com minhas memórias da infância e compõe o poema da tarde, tomando de empréstimo o lirismo do passarinho que despretensiosamente pousa na antena da TV do prédio vizinho.
De minha varanda, observo com atenção e porventura alguma sensibilidade como a tarde de domingo fica muito mais bela quando a chuva passa e deixa seu recado terno de que devemos observar um pouco mais a anormalidade poética das coisas normais, comuns e cotidianas, quiçá adestradas pelos nossos olhares entediados e humanos.
Fico imaginando se a planta que vegeta estática no vaso da varanda também fica mais alegre quando dá de caras com o sol que novamente lhe acaricia as folhas com a vivacidade de seu calor natural. E, ao mais leve oscilar de uma ou outra folha que parece dançar ao vento e orvalhar sua felicidade pelos ares, me convenço de que nós, seres humanos que praticamente não reagimos aos sinais explícitos da beleza das coisas ao nosso redor, é que somos mais vegetais, imprecisos e desgarrados da paixão de viver e se permitir renovar as intermitências do espírito.
Eu sei que a rotina vai aos poucos perfilhando nossos hábitos e justificando nosso ócio. Também sei que o cansaço diário faz com que aproveitemos o friozinho do fim de semana para dormir aquele sono sem sonhos relaxante e merecido. Mas ao reaparecer dos raios de sol, não custa nada olhar pela janela e se surpreender com a beleza única da mesma paisagem de todos os dias. Pode não ser a primeira, tampouco a nossa última tarde, mas ela resguarda em si a energia efêmera e mágica que precisa ser vivenciada para que compreendamos o sentido da vida na essência das pequenas coisas. Por isso eu quero conceber o sol de pós-chuva de verão como um presente colorido e vívido para um domingo que tinha a presunção de ser apenas cinza. Eu não sei ao certo qual o preço da beleza da tarde. Mas sei que pagaria com prazer.

2 comentários:

Anônimo disse...

A beleza que a natureza nos proporciona ver não tem preço, mas nos é dado de graça. Portanto, o que nos resta fazer é apreciar e agradecer.
Parabéns pelo belo texto poético.
Izanete

Rafael Rubens disse...

Verdade, Izanete. Às vezes só nos falta perceber.