segunda-feira, junho 11, 2012

VIAJANDO COM A MORTE

            Rafael Rubens

Apressada em meio ao turbilhão humano-maquínico das ainda mais apressadas vias campinenses, Dona Lourdes, 44 anos, pedestre, católica apostólica romana, já calculava que iria se atrasar na chegada ao Hospital da FAP, onde o marido, Seu João Evangelista, já se encontrava desde mais cedo para se submeter a um pequeno ato cirúrgico: a retirada de sete doloridos e incômodos furúnculos que acharam de aparecer na região anal.
            Precisava estar dentro do hospital suíço-pontualmente às 8 horas da manhã, pois esta seria a hora em que Seu João estaria saindo da sala de procedimentos micro cirúrgicos e teria de ser acompanhado por alguém responsável nas duas horas de observação antes que o médico viesse lhe examinar e finalmente lhe dar alta.
            Apesar de detestar a idéia, devido ao alto índice de assaltos e acidentes, Dona Lourdes, ao olhar o relógio e constatar o ponteirinho que já apontava para quase 7:45 da manhã, percebeu que precisaria pedir uma mototaxi para chegar dentro do horário e acompanhar o marido que a essas horas já devia ter anestesiada uma das partes mais sensíveis e invioláveis do seu corpo.
            - Alô? É da Central Motos?
            - Sim senhora. Se ligou pra cá é porque já sabia. – a voz do outro lado da linha soava com aquele teor semi-gutural de quem parece que acaba de acordar e fala salivando as palavras com bastante sono e nenhum senso de humor.
            - É que eu queria pedir uma moto...
            - Uma moto? Meu Deus, quem imaginaria... Onde é o seu endereço?
            - Rua João Suassuna, número tal, centro. Agora tem que ser ligeiro, que eu preciso chegar ao meu destino antes das 8.
            - Não se preocupe, bem antes disso o seu destino chega até a senhora. Estamos mandando o motoqueiro certo. Pode aguardar que ele vai estar aí em pouco tempo. O número da moto é o 666.

                                                           * * *

            Nem bem haviam passado 5 minutos, a moto estaciona na calcada da casa de Dona Lourdes e dá duas sonoras buzinadinhas. O motoqueiro apresenta-se polidamente e desculpa-se pela provável demora. Vestia jaqueta e usava um daqueles capacetes convencionais que possui todo mototaxista. Magro, parecia habitar a casa dos 40 anos, aparentemente formal e contido nos gestos. Dava-se pra se ver, no entanto, que pela viseira do capacete existia um relampaguear de paixão e aventura no menos profissional e mais imponderado do olhar.
            - É a senhora que precisa chegar antes das 8 no Hospital da FAP?
            - Sou eu sim. Será que você tira pra lá em menos de 10 minutos?
            - Depende. A senhora quer com emoção ou sem emoção?
             - Com emoção é mais rápido?
            - Com certeza, senhora, e ainda tem sabor de aventura...
             - Então nem pense duas vezes! Com emoção e já...
O homem a priori contido e reservado levantou-se, tirou o capacete e soltou os enormes cabelos que desciam até a cintura e arregaçou as mangas exibindo os braços completamente tatuados.
- Bora andar, senhora?
- Nossa, o senhor é todo tatuado, moço...
O mototaxista não pôde evitar o riso - Minhas melhores tatuagens são minhas cicatrizes, dona! Agora suba aí sem medo, que a gente vai voar um pouquinho.
Dona Lourdes percebeu que teria de se segurar com força para não ficar pelo caminho. Comprovou quando o motoqueiro deu partida e arrancou quase empinando e ela sentiu um abrupto choque na espinha dorsal enquanto suas pernas decolavam ainda mais abruptamente dos pedais. A moto ziguezagueou pela rua, como que costurando as falhas e a fragilidade do trânsito campinense, cortou dois sinais vermelhos, não por imprudência, mas pela impossibilidade de frear e ultrapassou todos os veículos que ainda se achavam à frente, antes de descer a ladeira da FAP alinhando-se exatamente entre dois ônibus da Expresso Nacional em um espaço de no máximo um metro de largura, fulminando mais uma ultrapassagem louca e voraz, que fez coitada de Dona Lourdes ferir as mãos com as próprias unhas de tanto segurar forte para não cair e morrer espedaçada nas esburacadas ruas da cidade. 
Como não houve imprevistos na viagem, em pouquíssimos e paradoxalmente custosos minutos, chegava Dona Lourdes ao Hospital da FAP, nem tão sã nem tão salva como reza a máxima da expressão. Ao descer da moto e finalmente encontrar terra firme, Dona Lourdes não dava mais tanta importância ao horário, embora estivesse perfeitamente dentro dele. Com a raiva que estava teria dito poucas e boas ao irresponsável mototaxista que apenas sorria serenamente esperando o pagamento da corrida, não fosse o seu estado de choque que a impedira temporariamente do ofício de falar. Apenas entregou os literalmente e apavoradamente suados 5 reais da passagem e ainda conseguiu murmurar labiamente um mecânico “obrigado”.
- Foi um prazer, senhora. Meu nome é Everaldo, mas todo mundo por aqui me chama  de Morte. Já sabe, quando precisar, pode mandar chamar. Eu sempre chego mais rápido do que todo mundo imagina...

7 comentários:

João Martins de Medeiros Júnior disse...

Pra variar, outra otima estória... ri muito...gostei mesmo primo, parabéns

Lidgyane Barbosa disse...

Um misto de realidades assustador! kkk
Mas, nem necessita comentarios, pois sua obra fala por si baby!

Parabéns!.

Izanete disse...

Muito bom Rafael! Mas, não deixa de ser uma realidade vista nas grandes cidades. Existe muitos moto-táxi-morte. kkkk Parabéns pelo texto.

TarcisoMeireles disse...

Muito boa, meu amigo... Prendi minha atenção por cinco minutos que voaram no ótimo decorrer dessa estória...parabéns...abraços

TarcisoMeireles disse...

Muito boa, meu amigo... Prendi minha atenção por cinco minutos que voaram no ótimo decorrer dessa estória...parabéns...abraços

Rafael Rubens disse...

Então... Trata-se de mais um caso verídico que compõe um dos inusitados quadros da vida campinense. Claro que na crônica a gente dá-se uma floreada literária, mas a substância continua a mesma: a velha, rotineira, atribulada, mágica, impetuosa vida real.

Anônimo disse...

Ah! adorei o texto! Como todos os outros que tive o prazer de ler! Pior que é bem real... muito bom! Um beijo! Lyzandra Shaeffer