terça-feira, maio 22, 2012


AS CICATRIZES DESCARTÁVEIS DO DIA

            Rafael Rubens

          Esta semana, voltando da academia, mais um desses lugares pós-modernos em que malhamos nossas humanas faltas de cérebro, me deparei com uma cena bastante comum para quem freqüenta o sereno das noites campinenses: duas crianças, que não deviam contabilizar mais de sete ou oito anos remexiam nas latas de lixo dos postos comerciais ali da Rua João Pessoa à procura de caixas de papelão, enquanto um terceiro menino esperava em cima de uma carrocinha, segurando com uma das mãos um carrinho verde, talvez o grande achado da noite, e com a outra empunhava habilmente o cabresto de um jumentinho já um tanto alquebrado e morrinhento, que teria a tarefa de transportá-los de volta pra casa.
            O menininho da carroça quis esconder o carrinho verde quando me viu, talvez por imaginar que eu poderia julgá-lo por algo que ele fizera de errado, como acusá-lo de roubo, ou o que seria ainda pior: acusá-lo da insistência de tentar viver alguma remanescência de sua infância roubada. Os outros meninos tentaram esconder o verde dos olhares que marcava suas faces infantis, mas logo viram que isso seria impossível e um deles até sorriu como se quisesse me devolver a complacente expressão de ternura que se desenhara em meu rosto naquele momento.
            Eu passei por eles e a cena ficou para trás. Mas tudo aquilo me fez pensar nos desígnios e descaminhos dos nossos destinos. Tentei encontrar algo que em vão justificasse a conjuntura das nossas diárias desumanidades. E lembrei-me das palavras um tanto sem propriedade, mas de uma verdade incessante murmuradas por Pelé ao marcar o milésimo gol: “Não podemos esquecer as criancinhas!” Seria tão fácil deixá-los para trás e deletar essa lembrança como mais um arquivo descartável que atrapalhou a paisagem sem manchas do meu dia.
            Mas não é possível descartar os lances da vida real como se fosse um rascunho de um poema mal escrito que deve ir para a lata de lixo. Porque remexendo naquela lata de lixo existiam histórias humanas, representadas por crianças que ainda desconhecem o quão cruel e desigual é o teatro da vida organizado e mascarado pelas personas da sociedade. Não vou descobrir jamais se aquelas crianças possuíam alguma família que aguardava ansiosa e preocupada suas voltas para casa, se havia algo para comer quando finalmente chegassem tampouco se tinham um lugar aquecido para adormecer seus verdes anos e quem sabe sonhar com um futuro verdadeiramente melhor.
            Sei que eles ficaram na solidão noturna da Rua João Pessoa guardados apenas pela esperança de que a vida pode ser mais fácil e de que a noite pode ser muito mais bonita. E também sei que o brilho tecnológico das luzes da cidade grande pode ofuscar até mesmo o brilho das estrelas que cintila timidamente no nosso céu enevoado, mas não há de ser maior do que a rutilância presente nos olhares sonhadores dos meninos que, pela magia criança de sentimento do mundo
, suplantam as adversidades da vida e o sabor de sangue pisado na boca noite. 

2 comentários:

Fernanda Medeiros disse...

Muito bom! Mas acho que infelizmente essas criancinhas já conhecem a crueldade tão imanente da vida moderna. Hoje em dia elas aprendem bem cedo... basta pensar nos motivos que levam alguns pequenos a usarem entorpecentes baratos e nocivos bem no coração da cidade, e o que é pior, sob os olhos atentos da sociedade, que parece simplesmente achar "normal".

Rafael Rubens disse...

Verdade, Fernanda. A situação está na nossa frente. Não precisa olhar de cronista para perceber, basta um olhar mais humano.