terça-feira, fevereiro 14, 2012

QUANDO VOAR PERTO DO SOL NÃO DERRETE MINHAS ASAS

Rafael Rubens

Todo mundo que escreve, o faz por um motivo. Mesmo que seja porque o momento existe, como poematiza Cecília. Geralmente começamos a escrever quando estamos apaixonados, lá pelos ardores de nossa adolescência, porque queremos segredar nossos amores em forma de palavras, mesmo que seja para que ninguém jamais leia ou saiba. Quando a coisa de fato é mais séria, as paixões da juventude passam, mas a inquietação para escrever permanece dentro de nós garimpando possibilidades de rascunhar as entrelinhas daquilo que pensamos ou sentimos.
Escrever é sobretudo expressar uma necessidade interior de verbalizar os sonhamentos, dizia Rilke ao neófito Franz Xaver Kappus em suas Cartas a um jovem poeta. Obviamente ele não dizia com essas palavras, mas o cerne da discussão é de fato esta. Porque escrita é mesmo a estética que dá asas à solidão que adormece dentro de cada um de nós. Escrever é desenhar as respostas para as perguntas feitas pela parte mais curiosa das nossas sensibilidades. Acho impossível uma definição mais perfeita do que a dada por Rilke para explicar os motivos e as sendas do ato de escrever:
“Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?”Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade”
Eu lembro que minha professora da primeira série, por gostar dos meus textos gramaticalmente certinhos, dizia que eu seria um escritor quando crescesse. Eu inflava por dentro de um orgulho pueril e já me sentia um escritor de verdade, pelo fato de já ter escrito quatro cordéis bem iniciantes aos meus mal iniciados nove anos de idade.
Na verdade hoje compreendo que escrever vai muito além do que publicar textos. Quem escreve é aquele que ainda não perdeu a capacidade de permitir que sua imaginação emane para visitar as fronteiras do ainda não dito. Quero aqui parafrasear o poeta Lau Siqueira, quando ele diz em seu belíssimo poema Equilíbrio que equilibrar-se é quando voar sobre incêndios não derrete suas asas. Acho que escrever é justamente isso. É deixar falar nossas sensibilidades por vezes mordaçadas pelo nosso senso adulto de razão. É permitir que esse sonho de Ícaro vivente dentro de cada um de nós alce seu vôo, e que possamos sempre ir muito além da acomodada mesmice de sempre repetir ou desdizer o óbvio, sem que o sol derreta as asas da nossa imaginação.

3 comentários:

Amanditaa disse...

Como de costume, suas palavras me fazem respeitar e admirar sempre mais seu trabalho. Belíssimo!

Abelhas do Sabugi - PB disse...

Voce é o cara! O bom e antigo cara ...esse novo nao!

Rafael Rubens disse...

Amandita...
que bom ver seu comentário por aqui. Obrigado pelas palavras.
E Isaac, meu primo. O cara é você, rapaz... Rs