quarta-feira, fevereiro 29, 2012


OFICIAL: DIÁRIO DE UMA PAIXÃO MAL RESOLVIDA

Rafael Rubens

À escritora da carta de amor, 
que pediu exoneração do cargo de confiança
 que exercia no TRT da Paraíba

Não, o romantismo não se perdeu. Não de todo ainda. Que o diga quem esta manhã folheou as páginas do Diário Oficial do Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região e se deparou perplexo com uma carta de amor lá publicada, no lugar que seria destinado à divulgação do resultado de um processo importante.
 Consigo imaginar o misto de reações do público leitor: aquele casal de classe média alta que vive estampando as colunas sociais dos principais jornais do estado achou um despautério completo os pensamentos tresloucados de uma mulher que aceita a condição de ser amante, apesar de sensualmente não se tocarem há meses e ocasionalmente terem de também se satisfazer com terceiros. A mulher balzaquiana e solteirona sentiu uma pontadinha de inveja e quis que o tempo voltasse para que também ela pudesse reviver seus prazeres politicamente incorretos. E o poeta entendiado em meio à sonolência e à falta de apetite das manhãs de meio de semana sentiu-se regozijado com aquilo que considerou a poesia perfeita para o início do dia.
Todo mundo tem um diário onde resguarda os segredos do amor e do sexo, seja poetizando as entrelinhas sentimentais, seja extravasando nos detalhes das delícias do corpo. O problema é que o diário escolhido pela nossa amante (se é que foi ela mesma quem escolheu) para inscrever seus devaneios e desenhar suas lamúrias de um inusitado triângulo amoroso foi o Diário Oficial do TRT do Estado. Prato cheio para os falsos moralistas que fodem com o erário público do nosso estado inflarem-se com pensamentos de direita em nome da família e dos bons costumes. Motivo perfeito para que os cronistas do cotidiano tivessem assunto para preencher o espaço em branco da coluna no jornal.

Em nota publicada à imprensa, a assessoria de Comunicação Social do TRT, dentre outras partes, assim se pronunciou: [...] o teor da carta não revela a prática de nenhum ilícito, nem causou prejuízo às partes do processo, mas tão somente fatos da vida pessoal de uma servidora, que no seu histórico funcional não registra ocorrências que maculem a sua dignidade.
Uma vez ouvi que os versos e escritos de amor não são feitos para namoradas, namorados, esposos ou esposas. Escreve-se para os amantes, que é quando o amor borbulha de forma mais intensa e física, personificando os versos eternos do soneto 11 de Camões. Porque a vivência do amor físico perpassa fronteiras para além das quimeras do abstrato, por isso que quando se revela, aparece revestido de tanto ardor e tanta sofreguidão.
Se alguém achou sua carta ridícula, cara escritora, queira entender este adjetivo tão pejorativo na perspectiva de Pessoa, porque “afinal, só as criaturas que nunca escreveram  cartas de amor é que são ridículas”, como afirmaria o poeta. Sem falsa apologia às filosofias hedonistas é impossível não lembrar do Lord Henry Wotton, personagem de Wilde que defendia as insanidades morais e os desvios de conduta como forma de purificação da alma. A carta ardente da nossa amante certamente adquire um sabor mais ácido aos olhos dos leitores mais tradicionais porque circunscreve o esboço da coragem humana de se aventurar e das medidas de amar que navegam de encontro ao código aceito pelas convenções sociais, quando a melhor maneira de se livrar de vez de uma tentação é ceder a ela sem limites, mormente quando se habita nas divisas eqüidistantes entre o sexo e o amor.

5 comentários:

Aposte na vida, encontre o amor. disse...

SOCIEDADE HIPOCRITA, APENAS ISSO. Adorei a crônica primo, sucesso!

Carlos Adriano disse...

Parabéns pelo texto, ficou muito bom! Mas, uma retificação: ela pediu exoneração do CARGO DE CONFIANÇA não do emprego.

Rafael Rubens disse...

Obrigado, meu caro Carlos Adriano. retificação aceita, apesar de não alterar o conteúdo em muita coisa. Mudei lá em cima.Abraços.

Maxwell F. Dantas disse...

Uma coisa que me intriga é se realmente essa carta foi parar no diário oficial por acaso. Parece uma ideia absurda a moça se expor a este ponto propositalmente. Mas o estilo da carta, a escrita cuidadosa e organizada, mostra uma possível personalidade incomum. Não é o simples fato de participar de um triangulo amoroso - isto é antigo e corriqueiro -, mas a forma como ela se posiciona. De qualquer forma, esta missiva, além do que possa ter representado para a autora a partir de sua publicação, foi chocante ou ridícula para alguns, mas foi substância literária para outros.

Poetisa da Paz disse...

Bom dia Rafael! Parabéns pelo conteúdo do texto.

Destaco, isso é vero!

"Escreve-se para os amantes, que é quando o amor borbulha de forma mais intensa e física,"
Estou seguindo seu blog!Abç!