terça-feira, janeiro 10, 2012


NA LOCOMOTIVA DA SAUDADE

Não, este não é o Ateneu; mas bem que o subtítulo deste texto também poderia ser “crônica de saudades”. Não é à toa que “saudade” é a palavra do significado mais belo da Língua Portuguesa. Ela exprime um sentimento suave daquilo que não mais se tem, e ao mesmo tempo a insistente vontade de brigar com o cronômetro implacável do tempo para se tornar a ter. Por mais clichê que isso pareça, não há como não dizer que a sala de aula é uma metáfora da própria vida lá fora. Não se trata apenas de passar de ano, ter notas, conhecer colegas na mesma faixa etária. Porque a estatística da vida não tem esse mesmo automatismo; ela pressupõe aprendizados que se entrecruzam nas trilhas dos destinos de cada pessoa.
No começo do ano, todo professor tem uma lista de nomes distribuídos ao longo da caderneta. Que sejam Kelvins, Lucas, Matheus, ou Renatas. Depois de algum tempo os nomes ganham vida, histórias pinceladas entre desaventos e vitórias. E eu não precisarei mais consultar o diário de classe para saber que Mikaelle é a moça tímida de olhos azuis, que Matheus Rodrigues é o baiano e Matheus Menezes é o galego; que Walisson é o cara moreno que fica absorto desenhando sonhos no caderno, isto quando não sonha de verdade dormindo na sala... Chegar ao 3º ano do ensino médio é carregar muitas reminiscências na bagagem.
Observando o perfil de um deles em uma rede social dia desses, logo ele, aquele que se caracteriza pelo senso de inteligência e pelo fantástico espírito de liderança na sala havia lá escrito: “minha segunda família”. Foi a descrição mais oportuna em que eu sequer pensaria para expressar como se sente cada um dos jovens que hoje cá estão fazendo retrospectivas das saudades que inevitavelmente já começam a bater. Porque eu estou olhando para uma turma de verdade. Nenhum deles escolheu estudar junto com todos os outros, mas certamente escolheria viver tudo de novo se o destino nos permitisse segundas chances para redobrarmos nossas alegrias.
Fico imaginando o quão difícil será para cada um deles convencer a si mesmo que a partir de hoje não mais dividirão a mesma rotina na mesma sala de aula. Sim, vai ser difícil. Difícil como Thalyta falar na aula, difícil como Juvenal não fazer a resenha esportiva da rodada passada junto com Lucas e os Matheus, Esdras não fazer um trocadilho infame e geralmente de qualidades humorísticas questionáveis, ou Lidiane fazer... bem, Lidiane fazer qualquer coisa...
Não vou negar, eu também vou sentir falta. Sentirei falta dos textos impecáveis daquela menina revoltada com a hipocrisia social que nos rodeia, das argüições nem sempre convincentes do garoto que idolatrava as deusas do pop e a vida fora do Brasil; da dupla de moças que sentava à frente e por vezes eram as únicas pessoas a prestar atenção na aula; do triozinho das outras moças que sentava na outra extremidade sempre dadas a conversas paralelas; sentirei falta inclusive dos casais que tiravam a paciência do coitado do professor na sala, aquele casal, mais romântico, que não suportava ficar longe e a moça vivia brincando de fazer arte no cabelo do rapaz; e aquele outro casal, tão singular para não dizer excêntrico,   que curtia a brincadeira selvagem de dar mordidelas recíprocas.  Muitas vezes eles se esqueciam do resto do mundo e como se diz no popular lá do sertão todo mundo na sala ficava vendendo cocada.
E certamente, pra não perder o ensejo de um trocadilho pobre, uma das figuras mais peculiares da turma era o rapaz que vendia cocadas no colégio para fazer unzinho a mais no final da semana. Este era o mesmo que por muitas vezes chegava até mim e pedia para ir lá fora dar um “rolezinho”. Nas primeiras vezes, ante minhas peremptórias negativas, a turma toda veio advogá-lo dizendo que “deixasse, professor, pelo bem de todo mundo”. Quando resolvi perguntar o motivo ele disse de forma simples e sem nenhuma hesitação:
            - Eu vou peidar, pô...
A partir de então tínhamos um trato: ele saía de sala, passava uns minutinhos lá fora e depois voltava com todo o gás, depois de ter expelido aqueles mais incômodos no corredor...
Olhando hoje para eles pela primeira vez tão quietos e atentos, não quero dizer-lhes que a probabilidade matemática de todos se encontrarem assim, sentados juntos para assistir mais uma aula é praticamente impossível que aconteça novamente. Quero dizer-lhes simplesmente que os rodados versos daquela canção estavam certos: “um dia a gente chega e no outro vai embora. Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz”.
 Cabe a cada um deles a partir de agora levar para si o que foi bom e inesquecível e se preparar para o próximo embarque, porque isso é a vida, a maior de todas as escolas. E talvez o melhor de tudo seja essa possibilidade mimética de estarmos sempre nos reescrevendo, na troca de vagões dessa locomotiva nostálgica e atroz em que resguardamos as melhores fatias do vivível para sempre reencontrarmos nossas saudades um dia já compartilhadas.

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