quinta-feira, novembro 17, 2011


O DONO DA CASA

Rafael Rubens


Seu Fausto era o que João Cabral chamaria de um homem a palo seco. Não dava muitos rodeios na hora de dizer, fazer ou aprontar o que fosse. Barbeiro nas horas ocupadas, piadista de plantão nas horas vagas. Trabalhava em um quartinho apertado de sua própria casa, sem alvará da prefeitura tampouco licença poética para as suas abstrações nem sempre sóbrias.
A julgar nem tanto pela beleza quanto pela higiene do ambiente, muito maldosamente se boatava na rua que Seu Fausto não era nem de longe o único barbeiro que habitava naquele lugar, numa insinuação grosseira e sem fundamento de quem queria a todo custo fofocar acerca da coincidência de alguns dos mais tradicionais clientes do salão terem sido diagnosticados com doença de Chagas.
Seu Fausto nunca se incomodou com esses comentários pequenos, porque a sua freguesia era muito maior e só fez crescer ainda mais quando ele pregou em sua parede de tijolos o pôster de uma atriz dinamarquesa de muito busto e pouco pudor. Os homens da cidade, mormente os senhores de mais idade, apreciavam a simplicidade do lugar, tanto pela eficiência de Seu Fausto no ofício, quanto pela aconchegância para se conversar porqueira com os amigos da juventude.
Em uma tarde escaldada pelo mormaço sertanejo das duas horas, chega Seu Mané Furico, tradicional vendedor de porcos da região, para cortar o cabelo que, segundo ele próprio, já o estava incomodando por entrar nas orelhas, grudar no suor da testa ou mesmo enganchar-se nas brechas do chapéu de palha.
- Hoje quero mais curto, Seu Fausto. Da derradeira vez o senhor por certo tava achando que eu virei fresco depois de velho, pra fazer um corte daquele.
- Mas Seu Mané, cabelo surfista tá na moda...
- Não existe essas boiolagens comigo não, Seu Fausto. Cabelo bom é aquele que a gente não sente, que só serve pra fazer sombra pro casco da cabeça! – dizia isso se empertigando na cadeira enquanto Seu Fausto pegava da bata de barbeiro que se encontrava devidamente enrodilhada em cima da malinha onde ele guardava a tesoura e a navalha.
Talvez pelo calor que estava fazendo, talvez pelo ambiente familiar a que já estava acostumado, Seu Mané nem pensou duas vezes antes de tirar sua camisa e sem nenhuma cerimônia sacudi-la no braço da cadeira de balanço vizinha à sua. No entanto, não pôde deixar de dar um estremeço ao vislumbrar Seu Fausto, que, do seu lado esquerdo, continuava sério e solene com as calças de cáqui arriadas até as canelas.
- Tá de brincadeira comigo, Seu Fausto?
- Ninguém aqui tá brincando, Seu Mané. Na hora de falar sério eu sou homem de palavra e de ação. O senhor fica nu da cintura da cima sem nem me perguntar se pode. E uma das coisas que eu mais prezo aqui é que quem quer que seja que entre por aquela porta saiba que eu continuo sendo o dono desta casa.

3 comentários:

Anônimo disse...

Gostei...
Esse escritor tem futuro.

Gisele Baciano disse...

Fique a vontade, mas com moderação.
Muito bom!!

MaisPatos.com disse...

Olá leitores, vcs tabém poderão ver as publicações do Rafael Rubens no site http://www.maispatos.com
Agradecemos ao escritor por ser colunista do nosso site.