quarta-feira, outubro 26, 2011


FABULINHA DA POLÍTICA LOCAL

Rafael Rubens

Quando Seu Bi, cidadão brasileiro com 53 anos de lavrador e mais uns 30 de cabresto eleitoral abordou o prefeito de sua cidade pedindo 100 reais para um negócio importante e inadiável, o prefeito julgou o que seria óbvio em suas concepções tão acostumadas ao clientelismo que ele mesmo muitas vezes alimentara: deveria ser dinheiro pra comprar cachaça...

O prefeito quis desconversar, dizendo o que políticos sempre dizem nesta hora, que tava sem dinheiro ali, que o procurasse depois que com certeza ele sanaria aquela necessidade tão imediata...
            - Mas seu prefeito, o senhor não tá entendendo. É porque esta seca, o senhor sabe...
            Lógico que mais uma vez o prefeito, sábio conhecedor que era de sua realidade local, se antecipou inflado daqueles argumentos eloqüentes e rebuscados que a população pobre, apesar de aplaudir efusivamente nos comícios, definitivamente não entende:
            - Sou plenamente cônscio de suas necessidades. É que no momento preciso me reunir com o Conselho deliberativo da Prefeitura, para discutirmos acerca de uns processos licitatórios de extrema relevância...
Era só o que faltava. Em intermináveis tempos de crise econômica, os projetos encalhados na Câmara e a oposição fazendo força vem gente pedir dinheiro para encher a cara e ainda botar a culpa na seca...
Como seu Bi se mostrasse irredutível aos argumentos mais ferrenhos que trazia em sua bagagem executiva, o prefeito decidiu finalmente perguntar o motivo de sua abordagem, visto que seu Bi, seu eleitor no último pleito, e por que não dizer, seu amigo de muito tempo, não estava disposto a desistir de seu intento.
- Seu prefeito, eu só preciso do dinheiro pra comprar um jumento... Tive de vender o meu na semana passada pra pagar a conta do mercadinho, num sabe...
            Diante de um fato tão inusitado e de argumentos tão solidamente sinceros, dada a humildade da empresa, não havia como o prefeito esquecer que havia justos 100 reais guardados no porta-luvas de sua luxuosa S10 4x4. Buscou-os e entregou-os a Seu Bi com um sorriso de quem quer dizer: “não esquecer que ano que vem é ano de campanha!”. E a fábula do dia pôs-se em ata com todos os personagens felizes: o prefeito na sua S10 e no ofício da consciência limpa; e o lavrador, que compraria um novo jumento para ajudar no ofício diário, na qual viver é um sinônimo forçado de aos trancos e barrancos saciar as necessidades humanas mais elementares.

MORAL DA HISTÓRIA: Moral? Na política? Deste país?

Um comentário:

Fernanda Medeiros disse...

Muito pertinente seu texto! E sem moral alguma, realmente. Política brasileira dos nossos desgostos --'