domingo, outubro 16, 2011



DA CORAGEM DE VIVER A VIDA

Para Ana Lúcia de Medeiros

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz
cantar e cantar e cantar
as belezas de ser um eterno aprendiz”

Agora há pouco, como é costume meu fazer todas as manhãs, fui à varanda observar um pouco da calma panorâmica que a cidade empresta aos domingos e abri a porta para que a poesia de verão das sete da manhã ventilasse um pouco a clausura do apartamento. O radiante sol de outubro que cintilava por trás de algumas nuvens campina-grandense acinzentadas somado à alegria dos passarinhos que namoravam despercebidos na sacada do prédio vizinho inspirariam um poema, se o meu apartamento não inspirasse uma faxina urgente.

Fiquei pensando em como havia gente dormindo neste momento, perdendo a oportunidade de contemplar o espetáculo sublime e gratuito que a vida oferece como num sussurro atrevido que diz: “vem viver! Não vai custar quase nada, a não ser um pouco de você”. E o pior: quantas pessoas, acordadas, não se permitiam perceber o belamente imponderável às suas pestanas quebrantadas por causa das viseiras anti-lirismo das responsabilidades estapafúrdias do dia-a-dia.
Viver é diferente de existir. É muito mais que tão somente conviver, descobrir sua função social ou achar finalmente o seu lugar no mundo. Mergulhemos na pragmática das palavras de Clarice: “viver ultrapassa qualquer entendimento”. Neste mesmo ângulo de percepção, Neruda poetizou que a maior das sofrências humanas é passar pela vida e não viver, não ter de que ou de quem sentir saudades.


Por isso que viver é difícil; porque ir além do que rezam os códigos sociais, as relações de trabalho e o fardo de tantas mais fidelidades inventadas nos impede de perpetrar o óbvio que é viver a vida. É preciso coragem para ser feliz sem ter de prestar contas. E para perceber que as grades da janela não prendem a poesia das manhãs nem o grito de liberdade que trancafiamos na garganta em nome dos compromissos cotidianos e das obrigações mortificantes da vida moderna.
“Viver é muito perigoso” – João Guimarães Rosa imortalizou o aforismo na metafísica das palavras do jagunço Riobaldo. Eu lia Grande Sertão degustando resolutamente essa metáfora da vida e suas travessias. Hoje compreendo o quão viver também é uma tarefa cada vez mais complicada se compreendida dentro dos módulos das subjetividades pós-modernas. Afinal, em tempos de humano-máquina o máximo que as máximas de senso comum ainda nos ensinam é que a obrigação deve sempre vir primeiro do que a diversão. E sinceramente não dá para calcular quanta água ainda vai rolar pela terceira margem das nossas existências adestradas antes que a beleza da vida se canse de tentar paquerar nossas desatenções contemporâneas.

Um comentário:

Ana Lucia Medeiros disse...

Parabéns Rafael, simplesmente maravilhoso!!! Ana Medeiros