domingo, agosto 14, 2011

CRÔNICA CRÔNICA DE DOMINGO À NOITE

Rafael Rubens

Pode parecer sinestesia, mas os domingos sempre me pareceram mais amarelados que os outros dias da semana. Olhar da varanda o dia nascendo e flertar com o sol que se anuncia pode parecer corriqueiro, mas é uma das coisas que mais me aprazem nos domingos de manhã. Lá ao longe as ruas parecem mais empalidecidas, destintas, como quem acaba de acordar de um súbito desmaio. A vaguidão da avenida sem movimento é como se segredasse que o fim da semana acaba de dar o seu ósculo cabalístico na boca no início da próxima.

Geralmente consumimos o domingo com a mesma sofreguidão de quem suga o último pingo de cerveja que insiste em se segurar no copo. Quando menos esperamos a manhã já tem passado e o cheiro do almoço que só os domingos possuem nos convida a alimentar um pouco a sensação de vazio daquilo que não fizemos na semana. Nada como sestear vendo na tv aqueles episódios feitos com humor bobo, previsível e combinado da turma do Didi. Ou sair à porta para aspirar a fumaça revigorante do churrasco que está sendo preparado na casa vizinha e como sempre embalado a forró de plástico ou música brega no volume que só os domingos à tarde e a falta de senso do ridículo permitem...

Pra falar a verdade são meio escassas as alternativas para quem prefere sedentariar este dia (por suas peculiaridades tão brasileiro) ficando em casa e marcando o sofá com o suor das utopias semanais. No menu (nem tão ao gosto do freguês) do controle remoto da televisão constam o futebol das quatro da tarde e as filosóficas observâncias proferidas no modo “enchimento agudo de cabeça oca” por Galvão Bueno, Luciano do Vale, Marsilha, Arnaldo Cesar Coelho, Neto e muitos outros de plantão, bem como o sexagenário Programa Sílvio Santos com suas perguntas óbvias como “Quem quer dinheiro?”, ou ainda, como diria certa amiga, as apelações do Gugu com nossa miséria com um movimento paulistano para enviar os nordestinos de volta.com Seja como for o único recado que consegue deixar é que televisemos menos e paremos de assassinar os nossos já tão assassinados dias com coisas ainda mais banais do que a rotina dominicalmente ensaiada de nossas próprias vidas.

Mas certamente é quando a noite do domingo chega que principia também o fadado estresse de pré-segunda-feira. O sabor irreversível e cruel de final de final de semana. Parece até que os minutos voam mais depressa como quem quer anunciar marteladamente que amanhã é dia de acordar cedo e espreguiçar-se no popularmente conhecido dia internacional da preguiça para, dentre outros lances da vida cotidiana, agüentar o chefe na pressão diária do trabalho e encarar o trânsito que fatalmente obstrui a visão privilegiada de mais uma bela manhã.

10 comentários:

Priscila Canêdo disse...

Muito interessante saber que os domingos são muito mais comuns aos meus do que eu imaginava!!! Com exímia perfeição, vc descreveu o que pelo menos eu sinto em relação aos domingos amarelados de minha vida..... a proximidade do início de uma nova semana sem uma nova rotina.... Parabéns escritor, abraços....

Rafael Rubens disse...

Obrigado, moça. De fato a sensação que o domingo passa é algo que não se resume apenas a minhas impressões subjetivas.

Giovanna disse...

Na infância, eu costumava atribuir uma coloração dourada aos domingos, porém as vicissitudes e a consciência de que nada, em absoluto, é dourado, fez-me perceber o quão bolorento e enfadonho é o domingo. But, a cor local da cidade, do espaço ainda mais modorrento, faz esse domingo dourado -dos idos da inocência- restaurar-me a façon de parler. Gostei.

Ana Lucia Medeiros disse...

Os domingos da minha infância não exibiam o tom cinza ou amarelado, exibiam tons alegres com sabores dóceis tais quais os sabores das mangas que colhíamos naquelas manhãs ensolaradas da minha terra querida. Era por demais contagiante pensar na possibiliade de receber visitantantes em minha casa naquelas tardes quentes,de saborear o delicioso almoço de domingo ao lado da família. Hoje, diferentemente, sinto um vazio enorme nas manhãs, nas tardes e nas noites de domingo. Não são mais dóceis porque não existem mais mangas a serem colhidas, nem almoço com a família. Não recebo mais visitas, não existem conversas, reflexões, compartilhamento de ideais. Agora me contento apenas em olhar os recados postados no face, no orkut, msn... ah, a TV essa eu sequer olho para não perder os últimos fios de esperança que ainda me restam.

Dona Leila disse...

Ah, agora todo o meu desprezo em relação ao domingo está devidamente representado! Toda essa depressão pós-sábado e pré-segunda está fielmente verbalizada.

Excelente trabalho, meu bom paraibano.

Pr. Weber disse...

Bom texto.. Tu escreve bem, tem futuro. Mas o domingo não precisa ser um tédio assim cara... Domingo é ressurreição, é descanso, é família, é lazer, e expctativa de produção da segunda.

andreilza barbosa disse...

Rafa, adoro as metáforas que vc usa. Cada texto é melhor que o outro e diz muito de cada um de nós, também concordo que o domingo é um pouco amarelado e essa sensação de que está começando a segunda-feira(da labuta) é pior que a própria segunda, sem falar na programação da TV que acaba com a rotina de todo mundo. Realmente vc desenha com exatidão e maestria os nossos domingos sem graça...

disse...

Cara tua escrita me fascina! todo domingo me sinto endomigada!

analista-oculto disse...

Penso que o tal momento de progresso em que dizem que o Nordeste se enontra deveria chegar um tanto mais nas cidades do sertão , para que os fins de semana fossem melhor compartilhados...

Será que realmente o nordeste esta vivendo essa boa fase ,que se diz nos jornais ?

Rousiane disse...

Obrigada por frasear a minha angústia de domingo e principalmente por lembrar que hoje é domingo!!! kkkkkk
Não tem como negar, é assim mesmo!
Os domingos realmente mudaram de cor e o pior é não saber onde foram parar os lápis de colorir!

Nada como escrever para aliviar ou piorar toda essa angústia, não é?

Lindo texto!
Beijos