quarta-feira, agosto 31, 2011

ALGUMAS BUZINADAS POR DIA PELA FELICIDADE DE UMA VIDA INTEIRA

Rafael Rubens

Certamente quem já tomou aquele ônibus coletivo, linha 333 da Expresso Nacional que faz o percurso de Bodocongó para o centro da cidade, já deve ter percebido. Ao adentrar aquela ruinha estreita e um pouco esburacada ali do bairro Monte Santo, e passar na frente à modesta residência cuja fachada já um tanto carcomida pelo tempo expõe o número 431, seu Ari, o motorista, um simpático senhor de óculos e cabelos grisalhos que denunciam os seus já bem passados cinqüenta e poucos anos, sempre dá cerimoniosamente as mesmas duas buzinadas.

Na primeira vez que percebi, julguei que a razão das singelas buzinadas fosse simplesmente para apressar o cachorrinho que atravessava a rua lentamente sem se dar conta do perigo que é ser fatalmente colhido por um ônibus de dois eixos. Talvez Seu Ari já tivesse atropelado outro desatento animalzinho como aquele e se compadecera com os gritos de dor e com a agonia do bichinho que estrebuchara no meio da rua esvaindo os derradeiros impulsos da vida arrancada de forma tão cabal. Talvez Seu Ari se lembrasse que aquela mulher com aspecto de solteirona que sentava em uma das últimas cadeiras no fundo do ônibus, de coração mais sensível e estômago mais fraco, desmaiara com a cena, precisando ser carregada nos braços por dois homens (como sempre sonhara quando ainda acreditava na existência remota dos contos de fada) e levada com urgência para o posto de saúde mais próximo. E talvez tudo isso tivesse feito o percurso atrasar por demais e Seu Ari levara uma dura danada do seu chefe na empresa.

Da segunda vez em diante, todavia, notei que não havia cachorros atravessando a rua, tampouco solteironas abancadas nos assentos de trás. No entanto, mesmo assim, as buzinadas sempre aconteciam. Era como um ritual, um ímpeto diário que celebrava ou anunciava seja lá o que fosse. Comecei então a mirabolar ideias e possibilidades várias que pudessem explicar as circunstâncias daquela rotina de buzinadas diárias. Foi assim que decidi eu mesmo perguntar a Seu Ari o motivo da repetição daquelas buzinadas sempre que passávamos naquele exato lugar daquele mesmo itinerário. Seu Ari riu-se menos da minha percepção do que da minha evidente curiosidade e explicou com a calma e a maturidade de quem já aprendeu bastante com a vida:

- É que esta é a minha casa. Sempre buzino para que minha esposa e minha família saibam que está tudo bem...

Em tempos de assaltos freqüentes e desrespeito cada vez maior à vida é natural imaginar que as famílias dos motoristas e cobradores dos ônibus fiquem mesmo com os corações apertados só de imaginar os perigos a que estes profissionais estão expostos. Por isso Seu Ari nunca deixava de avisar que estava vencendo os riscos e os ossos do ofício de mais um dia. E aquele era o seu particular código silenciador de amarguras. Fosse chuva, fosse sol, dia ou noite, feriado ou final de semana o coração de Seu Ari já sorria com a possibilidade de mais uma vez transmitir o merecido sossego àquela humilde residência número 431, que parecia sempre ficar mais radiante quando embalada aos dissonantes, porém reconfortantes apertos na buzina.

Um comentário:

analista-oculto disse...

Interessante, deu pra relembrar alguns percursos nos quais passei em Campina Grande...

Sergio A. Medeiros
Depto. de analíses da rede mundial
Sao Paulo, sp , Brasil
sergioaraujomedeiros@hotmail.com (msn)