terça-feira, abril 19, 2011

NO DESCOMPASSO DAS ATRIBULAÇÕES DIÁRIAS

Rafael Rubens

Talvez todo mundo (ou pelo menos os mais sensíveis e humanos de plantão) já tenha se perguntado alguma vez sobre o destino daquelas pessoas que encontramos na rua lá pela hora do rush, atravessando nossas pressas e descompassando nossos espaços. Afinal, as tantas camisetas que se entrecruzam divulgando marcas baratas, o zum-zum-zum das vozes misturadas no trânsito humano e o turbilhão de vidas que se transpassam na multidão das grandes cidades parecem detalhes absolutamente desimportantes em relação aos nossos compromissos diários brasileiramente cumpridos na pressa desesperada de quem esqueceu a pontualidade. Mas de vez em quando nos flagramos imaginando as histórias, os universos, quiçá as glórias cotidianas ou os desaventos daqueles que fotografamos no soslaio do nosso dia.

Quem será aquela senhora baixinha com aspecto de humilde que o vigarista na calçada conseguiu facilmente convencer a comprar um mata-moscas vagabundo? Ou: será que aquele moço é tão preocupado quanto sugerem suas entradas de calvície e suas faces encovadas? Ou ainda: será que aquela menina linda de calça jeans apertada e rebolado incrível vai mesmo para onde sugeriu minha disfarçada olhadinha para trás?

Na verdade o mais comum é minimizarmos os encontrões e colisões involuntárias, sem olharmos no rosto ou arriscarmos um olho no olho. Cumprimentar esses desconhecidos está completamente fora do código social tão bem organizado que mantemos em nossas cabeças adestradas de humanos modernos e pseudo-civilizados. Não parece mesmo ser um hábito que habita o nosso enfadado cotidiano.

Eu mesmo me surpreendi na ocasião em que um desses quarésmicos transeuntes que vestem a camisa da seleção brasileira em dias de melancolia pós-fracasso em copa do mundo me cumprimentou com um simpático “diz aí, brasileiro!”, pelo simples fato de eu também despretensiosamente trajar uma camiseta amarelinha. Ou no dia em que a menininha de lindos olhos azuis e sorriso pueril de janelinha no dente da frente acenou efusivamente para mim da janela do ônibus como se me relembrasse os versos imortais de Lennon e McCartney que dão o conselho mais singelo e mais elementar: “ei, não fique mal, escolha uma música triste e torne-a melhor. Lembre-se de deixá-la entrar em seu coração, então você pode começar, a melhorá-la!”

Adentrar os horizontes subjetivos do outro definitivamente parece ser algo que está se perdendo. Afinal já nos acostumamos a vegetar no paradigma de nossas próprias preocupações contemporâneas. Mas é bom de vez em quando dar uma pausa na correria atribulada dos nossos suicídios diários. Sem querer parafrasear Rubem Braga, a questão reside simplesmente na maneira como atropelamos os nossos dias, sem prestar atenção no que se perpassa ao nosso derredor, bem como na impaciência atroz que nos fez escolher aquilo de mais banal com que absolutamente não podemos perder tempo: a vida.

5 comentários:

ascka disse...

Poxa, eu pensei que era a única pessoa que, ao andar, despretensiosamente, pela rua, parava para imaginar aonde o vento, o mundo, a vida levaria aqueles que, como eu, caminhavam pelas ruas.

disse...

Eita! Também já fiz essas perguntas, senti uma certa nostalgia ao ler o texto, que convida a uma reflexão, realmente tenho deixado o tempo passar por mim e assistido tudo passivamente!

Fernanda Medeiros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda Medeiros disse...

Quase todos os dias fico imaginando essas coisas quando volto do estágio. Fico olhando da janela do ônibus a vida passar... e melhor do que isso, só viver!

Ah, por falar nisso, gostei muito dos "Suicídios diários".

;D

Aline Durães disse...

Um pouco de poesia. É isso que precisamos no nosso cotidiano arbitrário. Parabéns pelas palavras, acredito que se pararmos um segundo para vislumbrarmos os transeuntes a nossa volta, acabaremos adentrando em nosso próprio mundo de pensamentos e sensações. Quem sabe isso é viver. Quando possível passe no meu bloghttp://literamidia.blogspot.com/ e deixe seus comentários também.