sexta-feira, fevereiro 04, 2011

BLECAUTE

Rafael Rubens

Pois está lá fora, inundando tudo, a escuridão. Só não é total porque alguns respingos de luz de vez em quando banham a paisagem sinistra que se constituiu este fim de noite. Carros que passam, um farol bem distantemente que alumia a vigilância da cidade.

Nunca havia visto um silêncio tão grande. E digo “ver” propositadamente, porque a sensação que temos é que podemos de fato observar o silêncio se perfazendo no perder de vista de ruas desmaiadas ao longe. Parece que quase tudo parou. E é meia noite...

A hora não incomoda, na verdade pouco ou nada atento para a mística da coisa. Mas a sensação de estar sozinho no meio de lugar nenhum, de olhar para tudo à minha volta e não ver praticamente quase nada é algo que perturba e assusta. Na minha frente agora só mesmo o claro do computador cuja bateria ainda tem 70 por cento de carga para queimar as minhas pestanas. O apartamento em que moro parece enorme, porque assim na completa escuridão o mundo parece uma coisa pequena.

Estou sozinho e a escuridão é a minha metáfora deste princípio de madrugada. O fato estar a sós com minha sozinhez não diminui nem aumenta os meus supostos medos, fobias ou incompletudes de ser humano. A Física explica que a escuridão é tão somente a ausência completa de luz. Allan Poe gostava de lugares ermos e escuros para compor as faces sombrias de suas cenas imortais. Eu uso a escuridão para imaginar os lampejos de luar que certamente iluminariam a janela do quarto e me presenteariam com a magia da penumbra das noites de verão.

Agora há pouco fui novamente à janela. Os fachos de luz escassearam ainda mais e Campina Grande parece a criança pequena que adormece feito pedra depois de queimar energia pelo dia todo. A calma se confunde com a morbidez e tudo que quiçá se move é avidamente sorvido pelas entrelinhas do olhar. Assim, em meio a um turbilhão de sensações radiosas e pensamentos difusos o melhor mesmo é chegar à janela como quem chega ao alto do mundo e despretensiosamente banhar-se um pouco no mistério que envolve a poesia secreta da noite.

5 comentários:

Lucilene Oliveira disse...

O blecaute faz a cidade se aquietar e seu silêncio é tão grande que dá a sensação de que se materializou... Então tem inicio a profusão de sensações, a viagem por pensamentos diversos, aparentemente desconexos. Destes, chama muito minha atenção os que a seguir destacarei:
- Escuridão externa remete à solidão. Perturba-se por nada enxergar além do seu mundo interior, mas não tem consciência de tal fato, aparentemente não tem;
- O foco único de luz, vindo do computador, passa a ideia que seu habitat mais intimo é muito vasto diante do mundo mergulhado em negritude;
- Racionaliza sobre a escuridão , seu aspecto físico - usa a definição que a Física faz sobre o termo - numa tentativa de colocar o lado racional acima do emocional... Afirma que ela ( a escuridão) não afeta em nada as incertezas do existir... Será essa uma tentativa de fugir/encarar questões intimistas?
- Lembra de um famoso escritor e sua relação com a escuridão - usando esta, como ambiente inspirador para criação de cenas que imortalizaram sua obra. Para si, ela aguça a imaginação a ponto de vislumbrar o luar lançando uma luz bruxuleante quarto adentro, o que propiciaria um ar de pura magia, característico das noites de verão.
- Para concluir, compara o silêncio, o estado de inércia em que se encontra a cidade com o sono profundo experimentado por uma criança após um dia intensamente aproveitado. Como observador atento, o escritor/personagem, percebe a calma do momento se mesclando com morbidez ao perscrutar cada movimento que por ventura surja na cidade contemplada através da janela. Diante disso, constata que a melhor alternativa é desligar-se, deixando-se levar/contagiar pelo "mistério que envolve a poesia secreta da noite".

ascka disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ascka disse...

Foi sinestésico ler essa crônica.

Rafael Rubens disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Rubens disse...

No dia seguinte à escrita desta crônica (04/02/2011) soube-se que esse evento fora um apagão de grandes proporções que atingiu o Nordeste inteiro. Ontem, 25 de outubro de 2012, a mesma cena se repetiu, com proporções ainda mais extensas, pois os telejornais noticiaram que estados do Norte do Brasil também sofreram com a mesma falta de energia elétrica.