domingo, abril 25, 2010

MEU PEDAÇO DE ESTRELAS
A Dany, seja ela quem for ou tenha sido
Rafael Rubens
Faz duas semanas que mudei para um novo velho apartamento. Este é bem melhor que o antigo, pois tem mais espaço para guardar minha bagunça e mais ambiente para resguardar minhas bagunçadas reminiscências. Fora o fato de subir três andares com a mudança, que, apesar de modesta, pesa um bocado na subida das escadas, só encontrei motivos para gostar da nova morada. A não ser, claro, o episódio protagonizado pelo meu vizinho de porta, que veio logo dando um ultimato de que se eu fizesse barulho eles me colocariam pra fora do prédio. Condôminos, sempre simpáticos e solícitos, não?... Uma das principais vantagens é que o lugar é extremamente amplo. Claro, o fato de não ter quase móveis para ocupar os espaços da casa também ajuda um pouco nesse quesito; mas isso é um fator acessório, desimportante. O quarto é iluminado durante o dia (bom para quem não suporta a sensação claustrofóbica e erma dos lugares sem luminosidade) e escuro durante a noite (bom para quem sofre de claridade na vista e perde sono por causa do excesso encadeante de luz noturna). Mas certamente o que mais me chamou a atenção em todo o apartamento foi um pequeno cubículo que fica anexo ao meu quarto, cujo acesso se dá através de uma portinha estreita. O propósito do cubículo anexado parece óbvio: pendurar varais de roupas ao ar livre. Todavia, há muito mais para perscrutar nesse pequeno lugar. Primeiro pude observar que pelo menos uma criança já habitou por aqui e que também refugiava suas quimeras nesse mesmo cubículo, pois nele há desenhos daqueles que só as crianças conseguem fazer. São espirais, mãozinhas carimbadas, corações, rabiscos e estrelinhas. Todos pintados em vermelho, azul e verde, talvez algum resquício de dourado aqui acolá. Além disso, há ainda a assinatura singela da jovem artista. O nome também está meio rabiscado, mas em meio à aquarela de sonhos e figuras dá perfeitamente para se ler: Dany. Provavelmente jamais conhecerei Dany, mas já conheço um pouco da sua sensibilidade. E esta é sem dúvida a melhor maneira de conhecer outro ser humano, penetrando-lhe na essência e compartilhando a linguagem da alma. Na verdade sinto como se a pequena artista ainda habitasse esse cantinho do apartamento. Pois é nesse cantinho que passei a vir todos os dias depois que chego do trabalho. Para desanuviar o astral, dar uma massagem de lirismo no espírito, desopilar da monotonia da rotina. É lá que em noites menos campina-grandense enevoadas eu venho contemplar o noturno estrelado do céu. É lá que eu embarco para bebericar um pouco da poesia brindável da noite. Por isso já batizei o lugar de “Meu pedaço de estrelas”. Mesmo porque achei definição melhor nem mais oportuna para denominar o meu refúgio particular, onde venho sempre para abstrair meus pensamentos cansados e poematizar o fardo cotidiano de mais um dia.

4 comentários:

Samelly Xavier disse...

E se eu fosse você, eu escreveria uns poeminhas rápidos e emocionados na parede e assinaria Rafa. Para que alguém no futuro possa te dedicar um texto

Esse é, a partir de agora, teu texto "mais preferido" por mim.

Beijo recitado

Sidney Andrade disse...

Olá, Rafael
Não sei se você vai se lembrar, sou Sidney Andrade, amigo de Samelly. Ela me falou que você está prestes a lançar um livro...
Eis a questão. Faço Comunicação Social pela UEPB, e meu trabalho de conclusão de curso tem por tema "O blog Literário como ferramenta de autodivulgação para o novo escritor do século 21". O trabalho de análise será em cima de questionarios aplicados a sujeitos que possuem blogs tanto para divulgar os livros que publicaram, quanto para divulgar os seus textos mesmo não tendo podido publicar livro ainda.
Gostaria de saber se você não estaria disposto a ser um dos sujeitos da minha pesquisa. O questionário é simples, será aplicado via email mesmo.
Se quiser, pode entrar em contato comigo num comentário no meu blog (www.sidneyandrade.blogspot.com), ou se preferir, meu email é sidneyandrade23@hotmail.com
Desde já, agradeço imensamente a atenção.
Grande Abraço.

Fernanda Medeiros disse...

Tinha esquecido o quanto amo esse seu texto. E agora, tendo conhecido o recanto da artista, ele parece ainda mais fiel à realidade. Parabéns! ;)

Lucilene Oliveira disse...

O texto é delicioso de ler. Fez com que me sentisse presente no ambiente ali caracterizado, a ponto de visualizar os singulares desenhos da jovem artista que usou a parede da sacada como painel. Uma questão sutilmente levantada no texto me remeteu a uma antiga inquietação: Será possível alcançar a essência do outro? Em muitos momentos eu duvido que seja. No entanto, aqui parece conter um indício que sim. O texto aponta que ao observar a produção artística de alguém, mesmo a mais rudimentar expressão – como os desenhos feitos por uma criança – pode-se captar (ou seria mais apropriado dizer vislumbrar?!) a forma como aquele indivíduo percebe o mundo e, através disso, a sensibilidade de seu olhar.
Tal perspectiva, ao atentar para aspectos subjacentes do fazer arte, indica que a essência do artista fica inscrita em sua produção. Talvez isso possa levar o observador ao menos a chegar ao que seria a superfície que daria acesso à essência do outro; Principalmente se ele ( o observador) permitir que sua sensibilidade aflore de forma irrestrita, oportunizando uma espécie de comunicação entre almas, como consegue fazer o personagem do conto ao passar a usar aquele canto do apartamento ( a sacada) como seu refúgio/ alento, capaz de libertá-lo das preocupações advindas das coisas práticas do dia a dia, assim como amenizar a sensação de solidão, já que, por meio de sua obra ali deixada, a garotinha/artista ainda habite este espaço, o que oportuniza que “ compartilhem a linguagem da alma” ; ainda, como ambiente perfeito para deixar vir à tona seu lado poético, pelo contato com sua atmosfera inspiradora e também por permitir a contemplação da noite.