domingo, abril 11, 2010

AS APARÊNCIAS ENGANAM, JÁ DIZIA A MÁXIMA POPULAR
Rafael Rubens
Desde cedo fui acostumado a ouvir o famoso clichê que prega que “as aparências enganam”. Sempre dei crédito a ele, por julgar verdadeira a tese de que as concepções imediatistas tendem na maioria a fazer revisões de conceito. Mas é meio inevitável que às vezes não cometamos o velho e famigerado equívoco de avaliar, rotular ou mesmo julgar à primeira vista. Por isso não me incomodei com o episódio desta tarde. Julguei-o inclusive normal e cotidiano, pra não dizer factual. Ocorre que estava eu no ponto do ônibus conversando com João, um amigo jornalista e, óbvio, esperando um ônibus. Conversávamos o que sempre se conversa com um jornalista: fatos que geram notícia, episódios político-sociais que repercutiram na semana e coisas afins. Como sempre, ele se vestia melhor do que eu. Sabe aquela máxima de vestir a camisa da sua profissão? É válida. Metaforicamente, claro. E, quer queira, quer não queira, jornalistas como João vestem-se melhor do que professores como eu. Eu vestia bermuda, chinelas e camiseta. Ele: calça, sapato social e camisa de botão. Daí a pouco um conhecido senhor evangélico daqui de Campina Grande, daqueles que saem distribuindo literaturas cristãs vem até nós. Vendo-me todo largado e despojado na cadeira do ponto de integração, vestindo uma camiseta de roqueiro que não sou, ele preferiu se dirigir a João:

- Você é evangélico, não é?

- Sou! – respondeu aforicamente o meu amigo jornalista, católico e apostólico romano.

- É, ele não é não, disse o simpático senhor entregando-me uma folhinha cristã que dizia: A confissão dos pecados e o perdão de Cristo.

Assim que me entregou o papel, saiu triunfante, com sorriso vitorioso e olhar em júbilo, como quem vai em busca de uma nova missão. João continuou sentado em seu estilo constantemente polido, tradicional e eloqüente; eu fiquei ponderando todos os conceitos amarelados que trago na bagagem e fazendo as possíveis leituras do fato. Bem, eu não sou evangélico mesmo. Mas também não faço questão que as pessoas percebam que eu não sou. Como João, sou católico, e muito do não praticante. E como qualquer cristão, já pensei diversas vezes nos princípios que levam à salvação da alma humana. Certamente, em nenhuma delas me ocorreu pensar na camiseta que estaria vestindo no dia do juízo final. Por isso fiquei ali alguns instantes entre perplexo e atônito remoendo as acepções que me ficaram do episódio. Dá pra se pensar em pelo menos duas coisas: Primeiro, que o simpático senhor evangélico tem pressuposta a idéia de que os que fazem parte da sua religião vestem-se de determinada maneira (e tomando como exemplo o figurino de João, parecem que se vestem bem). Segundo, sua atitude aparenta dizer que quem é evangélico não precisa mais ler literatura cristã. Confesso que essa segunda parte me deixou um tanto preocupado. Mas longe de mim tecer considerações críticas a respeito. Afinal, as aparências enganam. Não é isso que reza a máxima popular?

2 comentários:

Samelly Xavier disse...

Preconceito é uma tristeza mesmo...

E como cantava - tão bem - Elis Regina "as aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, porque o amor e o ódio se irmanam..."

Que Deus tenha piedade é de todos nós - vestidos socialmente ou não

Beijos recitados!

Fernanda Medeiros disse...

Nem sempre as aparências enganam, no caso, a desse senhor é bem típica. Não rotulemos, claro, mas como abomino essa classe que acredita estar salva e além de qualquer julgamento! Pois é, quem diria, com certeza o escolhido de Deus não imaginou ser personagem de um texto em que ele não teve uma atitude assim tão correta, como prega a máxima protestante. Quantas máximas e coincidências para um mundo só.