sábado, março 20, 2010

A PRINCESA E O POETA – PRIMEIRO CONTO DE FADAS TOTALMENTE PÓS-MODERNO

Rafael Rubens

Eles não se conhecem. Na verdade jamais tiveram um contato pessoalmente. Mas já faz alguns dias que não vivem um sem o outro. Respiram-se, desejam-se, transpiram-se, envolvidos na recíproca louca e delirante em que seus imaginários os colocaram. Só que estão engolidos por uma distância quilométrica impiedosa. Ela é mineira de BH. Tem 39, um sorriso largo e poético, está sozinha e sensível. Ele é do Nordeste, de um recantinho da Paraíba. Tem pouco mais de 25, algumas palavras para cativar, alguns sonhos para combustar. Tiveram o primeiro contato numa daquelas famigeradas salas de bate-papo da internet. Ela entrou como “Princesa”. Ele entrou como “Poeta”. Fossem embebidos ou não nessa atmosfera meio de contos de fadas, o poeta e a princesa logo começaram a se comunicar. Contato virtual é uma coisa enigmática, meio mágica e meio freudiana. Buscamos no outro aquilo que nos falta, aquilo que intimamente, inconscientemente queremos com a maior ardência do mundo e não sabemos captar na perspectiva um pouco menos romântica ou ilusória da realidade. - Boa noite, princesa! - Boa noite, poeta... Primeiras palavras trocadas. A emoção é semelhante aos primeiros olhares que se cruzam lá na epigênese da adolescência com alguma tenção mais carregada de fogo de paixão ou curiosidade da libido. Primeiro vem as fadadas introspecções que se constituem no afã sempre iniludível de se descobrir afinidades, as indagações genéricas do tipo “De onde você é?”, “Quantos anos?”, “O que você curte?”. Passado este estágio, a Princesa e o Poeta foram teclar no reservado. Gostaram-se, quiseram-se. Dissertaram um monte de filosofias pobres sobre assuntos ainda mais pobres e banais, lamentaram a distância que se colocava como obstáculo quase intransponível entre eles. Alguém da sala havia dito maldosamente que princesa que passa dos trinta não é mais princesa. O poeta preferiu lembrar-se de quando Roberto Benigni chama sua amada de princesa numa das cenas de “A vida é bela!”. E assim eles embarcaram na viagem virtual que engoliria a distância real que os embala. Estão totalmente absorvidos na quimera que eles mesmos construíram, meio que num lance alucinado de Dulcinéia Del Toboso e Dom Quixote de La Mancha. Já suspiraram verdadeiramente quando finalmente foram pro msn e trocaram carícias metaforizadas, já suaram e se arrepiaram de verdade quando a explosão de sentidos os fez fazer um amor louco e voraz pela primeira vez através da tela do computador. O tesão já é tão forte que se evidencia nas palavras digitadas erradamente, que esquecem de formações sintáticas, semânticas ou morfológicas quando a onda de calor e de carências afloradas toma conta. Se eles se vissem pessoalmente... Se se vissem pessoalmente nada! O virtual é o que faz ser tão intenso, tão ardente. Mas hoje eles se falaram por telefone por mais de duas horas. Adoraram a diferença de sotaques e a perspectiva de estar um pouquinho mais perto, uma vez que puderam literalmente falar baixinho ao pé do ouvido. A conta vai vir bem pequenininha... Mas é isso. Faz parte do devaneio. É válido na metonímia dos anseios contemporâneos. O poeta e a princesa sabem que apesar de tudo ser muito verdadeiro e recíproco provavelmente jamais acontecerá na vida real. Mas eles não dão importância a isso não. Preferem viver a magia dos instantes compartilhados. Preferem a sensação apaixonada da criança que entra pela primeira vez num parque de diversões. Preferem acreditar na mimesis da situação envolvida, e assim deixar fluir as sensações que só entende quem deveras vivencia seu conto de fadas particular, alucinante e efêmero como o sonho de uma noite de verão.

3 comentários:

Samelly Xavier disse...

Pois é, Rafam mudam os personagens e o tempo, mas o enredo é sempre mesmo, para a alegria geral dos poetas, rs. E que as princesas façam download da paixao!

Beijo recitado

Fernanda Medeiros disse...

Um virtual bem reaL! Gostei! =)

shirley disse...

AMEI ESSA HITÓRIA, QUE ELA CONTINUE SENDO PROTAGONISATA , NA SUA VIDA . ABRAÇOS