domingo, março 14, 2010

OS NOMES

Rafael Rubens

Duas vezes se morre: Primeiro na carne, depois no nome. A carne desaparece, o nome persiste mas Esvaziando-se de seu casto conteúdo – Tantos gestos, palavras, silêncios – Até que um dia sentimos, Com uma pancada de espanto (ou de remorso?) Que o nome querido já não nos soa como os outros.

Muito prazer, Rafael Rubens! Pois é, este é meu nome. Costumo dizer que mais do que um simples nome, esta é a minha marca pessoal. Não porque só existam menos de dez “Rafaéis Rubens” no Brasil inteiro, mas, sobretudo pelo fato de que esta simples combinação meio novela mexicana de dois nomes próprios já diz algo sobre quem eu sou, já acompanha a idéia daquilo que eu realizei, deixei de realizar, conquistei ou fracassei dentro da semântica maior, que é esta coisa mágica a que demos o nome de vida. Nomes são nomes. Apenas nomes. Isto é fato. Aliás, obviedades. Mas quando eu releio os versos de Bandeira que pretensiosamente coloquei acima disto a que vou dar o nome de crônica, sempre me vem na cabeça aquela sensação ao mesmo tempo poética e comum de que os nomes são também uma parte importante da gente. São como sombras, que sempre estão onde estamos, como impressões digitais, que nos fazem únicos entre milhares. Como observou bem Bandeira, os nomes não morrem com a gente, materialmente, eles ficam. Se morrem é depois, engolidos pelo marasmo algoz e ostracísmico da passagem do tempo. O nome de todo mundo tem uma história. Josés e Marias tiveram motivos para Josés e Marias. Eu ainda hoje gosto de indagar à minha mãe sobre a razão que a levou a escolher Rafael. Rafael, minha marca, meu código de barras pessoal. Acontece assim, os pais escolhem o nome do bebê, que não ainda a mínima noção de significado ou significante para decodificar vocativos como João, José, Maria, Luzia etc. Mas de tanto chamarem e insistirem com este ou aquele nome, a pobre da criança é obrigada a se acostumar com seu primeiro e decisivo rótulo. Não, meu nome não tem influência do pintor renascentista Rafael Sanzio, tampouco foi escolhido por causa de um cantor famoso ou ator galã da época. Nada disso. Segundo relato da minha mãe (que é uma testemunha, digamos determinante na coisa) meu nome é proveniente em primeiro lugar de um desejo que tinha a minha falecida avó, mãe da minha mãe. Ela sempre quisera ter um neto Rafael. Eu fui o último neto de sua nem tão modesta prole. Antes de mim foram 16. Alguns Josés, outros Manoés. Nada de Rafael. Fui, portanto, a última expectativa da minha avó (me sinto até especial por isso). E, em um belo dia, do nada, meu pai (que nada sabia do desejo da minha avó) sugeriu pra minha mãe que meu nome fosse Rafael. O Rubens veio depois, porque meus pais acharam que combinava, e hoje, eu mesmo acho Rafael Rubens uma combinação legal, sim. Assim foi! Quem não gostou muito da idéia foi a minha outra avó (mãe do meu pai e também já falecida). Ela queria que meu nome fosse Guimarães. Não sei por que, mas queria. É um nome grande, forte, não sei se combina muito comigo. Mas confesso que já pensei na possibilidade de ter o mesmo nome do fantástico e inimitável escritor Guimarães Rosa. Mas por que minha avó queria tanto um neto Rafael? Era tão mais fácil ela ter batizado um filho com este nome, já que teve quatro. Minha mãe me explicou depois isso. É o seguinte: em sua juventude, minha avó fora apaixonada por um certo Rafael de Tal, jovem que habitava na região. Só que Rafael foi para o exército, e ao regressar encontrou minha avó já casada. Alguns dias depois adoece profundamente, diagnostica-se que havia contraído varíola e ele vem a falecer pouco depois, em pleno vigor jovial de seus 24 anos. Se eu fosse supersticioso, me benzeria e agradeceria aliviado por ter ultrapassado sua marca e já ter completado 26. Sei lá se os nomes não carregam destinos... A morte de Rafael aconteceu em 1926, há bem passados 84 anos. Mas seu túmulo ainda pode ser visto algumas vezes, quando a água do açude baixa o nível. Eu mesmo já cheguei a ver aquele túmulo pequenininho e discreto ostentando uma cruzinha de madeira mais do que simples. Pois é, quando o sepultaram, naquela terrinha modesta e fofa de margem de rio, ainda não havia açude. Mas em 1990 foi construído o Açude Água Azul, que abastece nossa pequena Várzea. A água mansa e azulada do açude refresca o jazigo daquele que inspirou o nome deste que aqui redige. Quando eu penso nisso, e em todas as possibilidades semânticas que são associadas à água eu fico feliz e regojizado. Se água representa ponto de partida para o surgimento da vida, a substância essencial de estarmos vivos, eu vejo muito mais vida do que morte naquele túmulo ali submerso, que guarda a história de mais um Rafael que por aqui passou. Eu me chamo Rafael quiçá por influência indireta desse outro ser humano, e, por todos os motivos e situações envolvidas, acho isso a coisa mais poética do mundo.

2 comentários:

Ítala disse...

Gostei da crônica sobre os nomes, de fato, sempre temos essa digamos "cisma" de saber o motivo que nossos pais deram o nosso nome e porque não outro. Engraçado, geralmente pensamos nos nomes que daremos aos nossos filhos (acho que mulheres pensa mais nisso). É algo intrigante mesmo, tem gente que muda-o por achar ridículo, já ouvi dizer até que tem gente que processa os pais por isso, eu hein! E para os mais místicos mudam por questões de numerologia... Enfim, nome é nome e tem o seu peso.

Acho legal ter nomes duplos, pelo menos dá um poder de escolha de ser chamado por um ou outro, no seu caso, os dois nomes são fortes Rafael Rubens, apesar de achar que o segundo seja mais imponente, gosto mais de Rafael...rs

Eu queria ter um nome duplo também, mas não me deram opção de escolha, mas uso o primeiro sobrenome para não ficar tão vago... Prazer, Ítala Farias. Já tive a fase de não gostar dele, mas hoje adoro ser a única na sala com tal chamativo, como dizem "É legal ser diferente”... rs, apesar de ser a mais normal das garotas.

Um abraço.

PS: Parabéns pelos escritos, são lindos, moço.

Abelhas do Sabugi - PB disse...

Rpz, primo você é o cara!
Parabéns de verdade.
Eu, Apesar de ter pouca ou nenhuma noção de como se escrever direito, colocando virgulas pontos e outras coisas que dão sentido certo ao texto, sou um grande apreciador de quem sabe e usa esse saber pra tornar claro o que muitos não conseguem ver nem com um farol de milha.
Eu acho que só consegui impressionar uma professora de português uma vez na vida, que foi dona Luzia, quando certa vez numa aula ela em meio a uma de suas explanações perguntou: (...)e vocês sabem em qual pais a vaca é um animal sagrado, e eu por ter assistido um desenho animado sobre a índia , falei na lata...india!!!! Ela realmente não esperava aquilo de mim !!!
Mas enfim não e por que eu não leve muito a serio a gramática que não goste de bons textos. E fico muito orgulhoso de ver um sugeito como você que valoriza as coisas de nossa terra e faz questão de deixar claro esse sentimento. Você e o patativa do vale do sabugi, sendo que nesse caso você escreve a coisa certa, certo...rs

Mas uma vez, Parabens!!!
Há eu também tenho um blog.
Ele se chama (abelhas do sabugi) caso decida criar abelhas, rs rs... fique com Deus!
Att: Isaac Soares de Medeiros
http://abelhasdosabugi.blogspot.com/