sexta-feira, março 26, 2010

ENTRE O SOL E A TERRA
Rafael Rubens
Final de tarde. Mais precisamente quatro horas e vinte e dois minutos. Finalzinho também do mês de março de ano tal. Mais uma data perdida na memória obliterada pelo dia-a-dia e engolida pelo sempre implacável calendário gregoriano. Dia comum, todavia incomum. O cotidiano supersticioso e romântico das pessoas daquela cidadezinha do interior e de concepções mais interioranas ainda parecia um pouco mais curioso do que suporia nossas vãs filosofias de aquém Hamlet. Dera no jornal da manhã que a tarde teria eclipse total do sol. Bem, eu não vi o jornal da manhã. Estava ocupado demais dormindo, quiçá sonhando, se trabalhadores brasileiros como eu ainda sonhassem. O jornal falara que o eclipse começaria algo em torno das quatro da tarde, depois explicou monotonamente o que é um eclipse, como acontece, a probabilidade temporal para seu acontecimento etc. Muito provavelmente fizera quase a mesma reportagem do último eclipse ocorrido (quando eu tinha lá pelos meus nada casimíricos oito anos, algumas experiências de vida a menos, alguns fios de cabelo a mais). Naquela ocasião eu me encantara como só as crianças conseguem se encantar ante o céu amarelado e o desmaio solar. Achei particularmente mágica a imagem do sol transformando-se numa foice dourada e crepusculosa para depois esconder-se completamente, ficando visível apenas a sua coroa de astro-rei.
Pois é. As pessoas podem até não entender absolutamente nada de científico a respeito. Mas há mesmo uma magia particular nos eclipses, naquele fenômeno raro em que a lua fica alinhada entre o sol e a terra provocando os teóricos da Astronomia e maravilhando nossos imaginários de senso comum. Por isso, naquela tarde eu percebi que a atmosfera da rua estava diferente. As pessoas olhavam pro céu e de vez em quando alguém consultava o relógio. Uns usavam negativos de fotografia como proteção para os olhos, outros ainda mais precavidos preferiam chapas de ultra-som, que cobria logo era o rosto todo. No mínimo esdrúxulo. Claro que eu comecei idiotamente a olhar para cima também. Não que eu estivesse interessado em qualquer coisa etérea ou apocalíptica que pudesse estar vindo do céu, mas minha curiosidade também quis provar um pouco daquilo que estava deixando todo mundo boquiaberto, pasmado. Só aí fui perceber o que estava de fato acontecendo. A luz do dia ia esmaecendo pouco a pouco e uma bandinha do sol já desaparecia, dando espaço para a figura esférica e contraditoriamente escura da lua. Depois foi escuridão total. As luzes dos postes se acenderam.
Alguns guris que estavam na rua desataram a chorar sem entender o mistério da situação e outros, menos ingênuos, a comemorar porque a noite chegara mais depressa e eles não precisavam voltar para a sala de aula. Até os animais foram invadidos pela sensação daquele instante. Cães entoaram uivos um tanto melódicos e adequados àquela situação meio gótica, gatos saíram mais cedo para as aventuras da noite e, muito mais envolvidos com a poesia da ocasião do que logrados pelo noturno momentâneo, alguns galos chegaram a cantar. Mas daí a mais quatro minutos a coisa foi voltando ao normal, as pessoas foram tirando a sensação orgástica da cara e voltando para o banal de suas casas e existências. Em seus semblantes percebia-se uma fagulha de egocentrismo, um brilho de orgulho besta de quem se sente privilegiado por ter presenciado algo fantástico e raro na mal contada história da humanidade.
O clímax do eclipse passara e daqui a pouco teria o jornal das seis que decerto abordaria a repercussão do fenômeno nos outros cantos do país. Era o cotidiano que voltava. Porque um episódio daqueles só ocorre umas dez vezes por milênio, mas a vida, por mais fadada e monótona que possa parecer, esta acontece todos os dias.

Um comentário:

sueli minas gerais disse...

rafinha,so podia ser voce mesmo.fazer um blog voltado para nossa literatuta.aqui voce mostrou um pouquinho do seu grandioso talento.menino da paraiba voce vai longeeeeeeeeeeeee.parabens rafa,parabens mesmo.sua alma poetica fala por voce.sou sua fa numero um rafa.voce é e sera a estrela mais bonita a brilhar.voce é um genio menino.parabens.voce é o cara!!!!!!!!!!! sueli minas gerais