terça-feira, agosto 11, 2009

MEIO SEGUNDO ANTES DE SE JOGAR

Rafael Rubens de Medeiros

Semana passada jogou-se mais uma pessoa do Edifício Lucas, aqui mesmo no centro bem central de Campina Grande. Digo mais uma porque já não se conta mais nos dedos os tantos últimos passos que decolaram desesperados daquela varandinha discreta de décimo andar e voaram para se agarrar ao menos mais uma vez ao sabor invisível de liberdade que paira no ar e que lhes afagou os cabelos no momento decisivo do salto.

Soube que fora uma mulher dessa vez. Mas não sei sequer o seu nome, de onde era ou que motivos lhe impulsionaram a tão fatal impulso. Só lembro de uma pequena formação de pessoas já desfazendo-se no local e da notícia sensacionalista cortando o ar feito bala perdida.

Acho incrível como as pessoas costumam fazer alvoroço ante uma fatalidade como aquela. Nessas horas sempre me vem um aperto esquisito na garganta como se eu tentasse remoer minhas concepções acerca do sentido da vida, a mesma vida que acabou de se esvair ali em carne viva. Naquele momento, ali tão perto da tragédia não foi diferente. Confesso com algumas gotas salivadas de remorso que me vieram (não sei por que) aqueles tão famosos versos de Chico Buarque: “caiu na contramão atrapalhando o sábado...” Mas não era sábado como na canção, estávamos na verdade em um dia útil e não menos movimentado na cidade grande. Também não estou bem certo se havia contramão para se cair, uma vez que esta só existiria a partir de uma “mão”, algo tão metafísico e abstrato que eu não saberia definir bem o que é. Geralmente ficamos estáticos e sem mais reação ao nos darmos conta de que estamos diante do abraço incontido e inevitável da vida e da morte.

Não sei se a mulher que se jogou deixou alguma carta, bilhete, email ou scrap de Orkut despedindo-se e/ou explicando sua decisão, algo que as pessoas da família e os amigos leriam e com que chorariam muitas vezes até que o impacto da coisa fosse desvanecendo com o tempo. Sei apenas do fato e não tenho pretensão jornalística de noticiá-lo.

Fico imaginando a sensação terrível e voraz que é o chão chegando cada vez mais perto após um pulo sem volta, coisa que só ela poderia nos dizer se isso aqui fosse literatura e não a vida real. Às vezes acho comigo mesmo que uma pessoa sempre se arrepende no instante seguinte a um salto suicida. E me dá uma amargura inquieta a idéia de que não dá para saber se a mulher da semana passada se arrependeu ou não quando se jogou; no máximo para lembrar q ue ela virou matéria nos fadados telejornais locais da tarde e assunto corriqueiro para os curiosos que fazem ponto dia a dia no Calçadão.

Quero pensar que a última imagem que lhe veio tenha sido vívida reconfortante o bastante para amainar um pouco da angústia que lhe inundava o aflito de um coração a poucos segundos de parar de bater. Quero imaginar que a sua última recordação tenha voltado a uma infância de desaltultices e manhãs felizes de domingo para resgatar uma cena alegre e desproposital do cativeiro involuntário da memória, e que meio segundo antes de se fecharem para sempre seus olhos possam ter sorrido uma última vez.

3 comentários:

Fernanda Medeiros disse...

PERFEITOOOOOO!

Não há outra palavra que descreva.
Você sabe que textos sobre vida e, mais especificamente, morte, me interessam bastante; mas com certeza esse é diferente...

Dá para sentir as palpitações nervosas de uma desconhecida minutos antes do fim, demonstrando, realmente, que naquele instante poucos perceberam o ocorrido como uma fatalidade, e sim como mais um espetáculo nas imediações do tal prédio.

Triste, mas real! Impossível não pensar que a vida não passa disso, uma coisa qualquer que uma hora outra vai embora.

Isaú Medeiros disse...

Parabens Rafael, mais uma vez de parabens.

Sobre o arrependimento, já li uma vez que após o primeiro segundos todos se arrependem mesmo de ter pulado..so nao lembro qual foi o método que usaram pra provar isso ;)

Abraços

Ra(e)unindo! disse...

Acredito que se arrependem pelo simples fato de estarem prestes a deixar a vida, essas pessoas lembram mais rápido que a força da gravidade que vivertambém tem seu lado bom e todas as coisas maravilhosas que anulam qualquer tristeza que possa habitar em seus corações.