terça-feira, agosto 04, 2009

BOLO COM GUARANÁ

Rafael Rubens de Medeiros
Falar em bolo com guaraná automaticamente lembra um monte de coisas: aniversário de criança, intervalo de reunião em que as pessoas não têm dinheiro pra comprar nada melhor, café da manhã dado em casa de político. O bolo e o guaraná são dois elementos que andam juntos com a história de cada brasileiro. Apesar do gostinho enjoado que num golpe de sinestesia chega a lembrar chá de boldo exagerado no açúcar, eu creio que todo mundo goste. Eu lembro da minha primeira vez com essa iguaria um tanto quanto popular. O pedaço de bolo um tanto modesto no tamanho e puído e esfarinhado na substância rapidamente se transformou em umas poucas e recatadas migalhinhas de farelo na minha mão. Já o guaraná, que foi servido num daqueles copinhos descartáveis bem vagabundos em que geralmente se dá pinga aos bêbados, eu desci de uma só vez, em goles decididos e sincopados. Curiosamente eu me lembro desses detalhes com uma clareza impressionante. Até porque, o arroto depois foi uma maravilha...

Enfim. Bolo com guaraná me remete a um número incerto de lembranças e situações, mas certamente a melhor de todas elas foi a do semblante satisfeito e comovido do meu pai, que pagou paternalmente triunfante ao dono da barraquinha assim que eu arrotei aliviado. Tá, tudo bem, a situação pode até não ser charmosa nem nada, mas lembra até o conhecido episódio da “última crônica” de Fernando Sabino. De lá pra cá já foram muitos copos e muitas fatias. Decididamente bolo e guaraná são duas coisas que se combinam e sua combinação vem marcando gerações e mais gerações. As bolhinhas do gás do refrigerante e o guardanapo (sempre meio grudado e contaminado com a umidade) que envolve o bolo parecem detalhes de uma coisa só. Falando nisso, já faz até um tempinho que eu não degusto do sabor nem observo de perto os supracitados detalhes. É, acho que tenho que parar de dar cano nas reuniões do trabalho. Seja em dias nublados ou com sol, entre um papo furado e outro um guaranazinho e um pedaço de bolo sempre vão bem. Afinal, parafraseando (e adaptando) o dito popular, bolo com guaraná podem até não ser caldo de galinha, mas com certeza não fazem mal a ninguém (a não ser que a pessoa sofra de diabete, gastrite em último grau ou coisas do gênero...)

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