quinta-feira, junho 11, 2009

QUANDO

Rafael Rubens de Medeiros

Quando eu era pequeno, gostava de observar os carros que passavam na estrada. Meu irmão e eu acompanhávamos com a vista até eles sumirem pequeninos e barulhentos num horizonte rarefeito e poeirento. Depois eu construía meus próprios veículos de caixas de remédio e brincava com eles na réstia da telha. Tinha uma das caixas de remédio que ofuscava uma luz azul belíssima. Acho que o medicamento se chamava Gleran, mas na minha imaginação era muito mais do que aquilo. Dizem que criança pobre tem mais imaginação do que criança rica. Talvez seja verdade. Alguma coisa a gente tem de ter mais... Uma imagem costumava visitar meus sonhamentos: a de uma descida numa serrinha, típica paisagem rural do Nordeste brasileiro, uma estrada de barro que passava em frente a uma casinha modestamente modesta. Confesso que até hoje inda me pego pensando naquele lugar. Era como se eu o conhecesse, sem jamais tê-lo visto na minha vida. Mas crianças são assim mesmo. Não apenas pensam, não apenas imaginam. Elas vivem o lado fantástico da vida. Por isso a vida parece fazer mais sentido. Quantas vezes me imaginei adulto, quantas vezes quis que o tempo passasse mais depressa para que eu chegasse a vivenciar as possibilidades que tanto formulava em minhas expectativas pueris! Hoje, depois de um quarto de século deixado para trás percebo que os verbos conjugados no futuro só têm relevância depois que saem do subjuntivo. É a gramática sem nexo da vida. Advérbios de tempo sempre me chamaram a atenção. Gostava particularmente dos “desdes”, “enquantos” e principalmente, dos “quandos”. Era como se eles tivessem a capacidade de recortar retalhos de vida e de tempo. Eu lembro do dia em que meu pai completou setenta anos. Ele acordou mal-humorado e pronunciou: “Estou com setenta anos! Estou velho e imprestável. E saber que parece ser ontem que eu era um menino que corria para todo canto.” Naquele dia eu percebi como retrospectivas podem ser cruéis, dependendo do ponto de vista. É simples pensar que tudo é uma questão de revisitar com outros olhos aquilo que já fomos. Mas o tempo. Ele faz muito mais do que simplesmente passar. A vida. Ela é muito mais do que um simples envelhecer de células. Quando finalmente compreendemos aquilo que significa ser adulto, um homem ou uma mulher com algum nível de maturidade considerável, tudo o que ansiamos é a alternativa aparentemente impossível de voltarmos a ser criança. A idéia não é voltarmos no tempo, isso contrariaria inúmeras teorias físicas e astronômicas. É abraçarmos aquela criança dorme no âmago de cada um de nós, louca para ser redespertada. Nossos sonhos não morrem. A distância entre os sonhos e a realidade está na disponibilidade simples de se abrir ou fechar os olhos. E quando se é criança se entende isso muito mais facilmente. Eu lembro que ficava observando os raios de sol da manhã só para que a claridade ofuscante do nascer do dia brincasse com minhas retinas. Então ilusões de óticas transparentes e intrusas desciam do céu como que de pára-quedas e se multiplicavam, ganhando significações e contornos diversos. E mais uma vez se aplica aquela teoria das imaginações das crianças mais pobres. Do que adianta comprar diversões caras se o mundo inteirinho convertido nas belezas acessíveis ao olhar pode ser nosso melhor brinquedo? Quando por acaso vejo alguma criança bem pobre brincando feliz e radiante, fico pensando no mundo um milhão de vezes melhor em que sua imaginação embarca. Nessas horas umas pontadinhas de ternura são inevitáveis. Então prefiro calar minhas concepções empalidecidas de adulto que finalmente absorveu a suposta face real das coisas da vida. E penso que os sonhos que eu sonhava quando era pequeno não são tão longínquos assim. Na verdade eles são meus melhores impulsos. E eu acho que jamais podemos perder nossos impulsos de vista. São eles que dão um colorido especial ao desbotado de nossas vidas manipuladas. Mas afinal, qual é a melhor hora de recorrermos a eles? Que tal agora mesmo? É só saber procurá-los no lugar certo. E o lugar certo é na simplicidade do olhar de uma criança.

8 comentários:

O gordo!!! disse...

Uma retrospectiva ou uma reflexão? Não sei. A única que sei é que aqui está verdadeiramente retratada a história e a beleza da vida na sua forma mais simples.

O gordo!!! disse...

Uma retrospectiva ou uma reflexão? Não sei. A única que sei é que aqui está verdadeiramente retratada a história e a beleza da vida na sua forma mais simples.

ellen disse...

São poucas as pessoas que possuem sensibilidade suficiente para fazer uma "retrospectiva" totalmente envolvida com a emoção. E que acima de tudo, trás uma carga de reflexões ao leitor permitindo que ele se encaixe em cada palavra e tome uma percepção quase sempre despercebida: "A infância é nossa base,nossa raiz e que nela se constituem nossos momentos felizes"e que dependendo do individuo esses momentos podem se tornarem perpétuos e tão mágicos como a imaginação de uma criança!

ellen disse...

São poucas as pessoas que possuem sensibilidade suficiente para fazer uma "retrospectiva" totalmente envolvida com a emoção. E que acima de tudo, trás uma carga de reflexões ao leitor permitindo que ele se encaixe em cada palavra e tome uma percepção quase sempre despercebida: "A infância é nossa base,nossa raiz e nela se constituem nossos momentos felizes"e que dependendo do individuo esses momentos podem se tornarem perpétuos e tão mágicos como a imaginação de uma criança!

Samelly Xavier disse...

eu fico com a beleza das respostas (e dos olhos) das crianças: é a vida, é bonita e é bonita...

e seu texto é bonito, bonito, bonito mesmo.

que seu olhar-menino continue a guiar-se pelo horizonte.

beijo recitado

Sérgio Brito disse...

hum ....

Anônimo disse...

RAFINHA,ACABEI DE CRER MEU CHAPA,VOCE É MAIS UM CARA.UM CARA DA POESIA.VOCE É MAIS UM CARA.VOCE É UM GENIO DA RETROSPECTIVA DA SUA VIDA.FALA COM A ALMA.SOU SUSPEITA PARA FALAR.PORQUE VOCE SABE QUE ALEM DE TER TIDO A SORTE DE TE CONHECER.AINDA FUI ME APAIXONAR POR VOCE.TE AMO SUA ETERNA AMIGA E AMANTE SUELI REGINA DE OLIVEIRA.DE MINAS GERAIS.TE AMOOOOOOOOOOOOOOOOOO

SUELI PRINCESA disse...

PUXA VIDA RAFA,VOCE É UM GENIO RAPAZ.A BURGUESIA FEDE.A BURGUESIA QUER FICAR RICA.ENQUANTO HOUVER BURGUESIA NAO VAI HAVER POESIA.AINDA BEM QUE HA O RAFINHA RUBENS.PARA FAZER BOAS ,E INESQUECIVEIS POEMAS,E POESIAS PARA ALEGRAR O NOSSO CORAÇAO.TE AMO RAFA,TE AMO.SUA ETERNA NAMORADA DE MINAS GERAIS.SUELI REGINA.SEM PALAVRAS PARA ELOGIAR O SEU BLOG.VOCE É DEMAIS AMOR.DEMAIS