quinta-feira, dezembro 04, 2008

CARTA PARA PAPAI NOEL
Rafael Rubens de Medeiros
Querido Papai Noel Faltam apenas (ou ainda, não sei) 21 dias para o natal. Há quem diga que esta é a época mais linda do ano e o meu intento aqui nesta carta não será o de jamais discordar de tão observadoras pessoas. Eu também me encanto com todas aquelas luzes, toda aquela neve artificial que não tem nada a ver com a nossa realidade tropical e com as músicas suaves que as lojas colocam para tocar. Agora há pouco, por exemplo, quando voltava da padaria reparei que o posto de gasolina aqui de perto de casa tinha colocado um belo enfeite de natal em que estão o senhor e suas renas logo acima da expressão “Merry Christmas” (assim em inglês mesmo). Confesso que adorei o anglicismo. E, com toda sinceridade, quero entendê-lo muito mais como uma marca cultural positiva da globalização que como apologia barata ao imperialismo norte-americano. Definitivamente o natal é uma época do ano que nos faz refletir um bocado. Por exemplo, por que, com tantas evidências cabais e incontestes, ainda há pessoas céticas ao ponto de acharem que o senhor não existe? Essas pessoas só podem não andar pelas ruas na época do natal... Sabe, Papai Noel, eu ainda não sou pai nem nada, mas no dia em que eu tiver um filho e ele perguntar se o senhor existe, eu responderei com todas as letras: “Papai Noel existe sim, meu filho.” Ele surgiu não lá do Pólo Norte (lugar frio da mulesta), mas da necessidade de lucro capitalista e do comércio que sempre esquenta em tempos de se receber décimo terceiro. Posso te contar um segredo, Papai Noel? Tinha um tempo que eu detestava o senhor. Dizia que o senhor aparecia para uns meninos e outros não. Essas coisas de quem não sabe o que diz nem diz o que sabe... O senhor me entende, não entende? Infância pobre do sertão, menino que dormia de rede. Eu não poderia exigir tanto da solidariedade do senhor e da precisão geográfica de radar das suas renas. Não era o senhor que me deixava de fora, como eu por pueris vezes cheguei a pensar. Hoje compreendo que eu é que não estava de dentro. Por isso não entendia; por isso me acostumei a passar os natais sem a magia midiática dos seus “ho ho hos....” Esta carta, Papai Noel, tem dois propósitos: o primeiro e mais imediato deles é pedir desculpas pela vez em que fiz um gesto obsceno para o senhor lá na rua Maciel Pinheiro após receber o seu sincero voto de “Feliz Natal, ho ho ho!” o segundo propósito diz respeito ao meu pedido de natal. Trata-se de algo muito simples. Eu apenas gostaria que neste ano as pessoas vivessem o natal por aquilo que ele realmente, historicamente significa: a comemoração pelo nascimento do salvador da humanidade. Quer dizer, Papai Noel, eu imagino que o senhor deva ser cristão também... Por isso mesmo eu gostaria que a fraternidade natalina se desse nas pessoas tornando-as mais solidárias e humanas umas com as outras, e menos hipócritas nos troca-troca de presentes de promoção de queima de estoque. Enfim, Papai Noel, não estou querendo desconstruir o ideário da nossa cultura ocidental, apenas desejando que este ano todos vivamos o verdadeiro espírito natalino. Que todos tenhamos um feliz natal, mas acima de tudo um natal de verdade. Em que as pessoas lembrem-se de Cristo e conseqüentemente do verdadeiro sentido de se comemorar o natal, apesar das preocupações, das dívidas, das injustiças sociais. Um feliz natal para todos, mesmo para quem não tenha cinco centavos para dar um big-big de presente. E um feliz natal para o senhor também, Papai Noel. Pode ficar em casa este ano. Tenho certeza de que o senhor (não mais que o resto do mundo) merecerá este descanso e, por assim dizer, este legítimo e descapitalista presente de natal.

3 comentários:

Samelly disse...

Já que você me falou, todo animado, deste novo post e faz tempo que eu não comento aqui, então...

Como eu já te disse, entrevi os dois Rafaéis aí: o que sonha e o que se incomoda com os sonhos. O que consegue pôr MULESTA e IDEÁRIO CAPITALISTA num mesmo texto.

Acho o Natal uma época linda, a parte todo o exagero do consumo. Que possamos consumir os sentimentos verdadeiros, e não deixar uma ponta (de estoque) sequer para depois. Diz a Papai Noel que eu acho um charme aquela roupa vermelha dele...

Beijo recitado

Sérgio Brito disse...

Meu grande amigo poeta vou finalmente fazer um comentario no seu blog. Já os visitei algumas vezes mas comentar ... não sou bom nisso não.

Esse texto chama atenção, uma coisa que o torna especial é a multiplicidade de enfoques que você dá às idéias.Sabe ressalta os encantos da época natalina e ao mesmo tempo dá um tratamento realista à situação. Também notei em alguns pontos um ar cômico na colocação de determinadas fatores.

Não vou comentar o Natal em si ... você me conhece a 24 anos e sabe que tenho dificuldades em assimilar qualquer coisa que não seja descrito por uma equação e que não venha a se decompor em algum tempo mas o texto é simplesmente maravilhoso.

Rousi disse...

Engraçado... o meu post mais recente também é uma carta para Papai Noel, mas não sei se eu teria postado depois de ler a sua Carta.

Não que eu não me importe com esse consumo exagerado de sentimentos (R$$$$) e amor fraternal (U$$$$)... pq eu me importo, mas pq de uma forma que não sei explicar me senti egoísta. Talvez por não pensar no "verdadeiro sentido de se comemorar o natal, apesar das preocupações, das dívidas, das injustiças sociais" ou talvez por só pensar no meu sentido de comemorar o Natal...
Muito boa sua "revolta"... ops, seu texto! kkkkkkk

PS: Samelly exibidaaa, tinha que falar da roupa de Papai Noel kkkkkkkk, ele fica Sexy com ela kkkkkk Tbm gosto!

E como eu "não tenho cinco centavos para dar um big-big de presente" posso deixar um comentário, serve? kkkkkkkk

FELIZ NATAL!!!!

Beijos meus ;@