segunda-feira, outubro 06, 2008

SÓ MAIS UM CASO BRASILEIRAMENTE ILUSTRATIVO
Rafael Rubens de Medeiros
E o candidato a vereador daquela cidadezinha pequena em todos os aspectos semânticos dessa palavra pleiteava seu sétimo êxito. Estava confiante. Jamais perdera uma única eleição, uma única oportunidade de lucrar mais um voto de confiança. Jamais saíra do lado dos mais humildes. E seria doido de sair? Filho de fazendeiro, aprendera desde cedo que bom curral é aquele sempre bem pastorado. "Solidário e bem-intencionado". O vereador Henrique Leal gostava da máxima que o descrevia e auto-convencia nos períodos de campanha. Conhecia pessoalmente todos os tão quantitativos e estatísticos nomes que compunham a lista de eleitores do município. De fato, não poderia ser diferente. Proprietário que se preze sabe de cor de cada uma das cabeças do seu rebanho. Naquele dia, seu Henrique fazia um corpo a corpo apressado pela comunidadezinha rural da sua Bruzundanga tão palmo por palmo conhecida. Quando entrou sem pedir licença na casa de Seu Luiz de Tal, a quem “considerava como se fosse seu próprio irmão” já foi se sentando na calçada do fogão de lenha e se servindo com uma (sempre energética e revigorante) xicarazinha de café. Nem reparou que sujara de tisna a bainha da calça e foi logo populistamente perguntando: - Então, Seu Luiz, o senhor sabe o quanto eu prezo pela sua família. O senhor me conhece, eu gosto de ser direto. Do que o senhor está precisando, pra que a gente fique certo nesta eleição? - De um representante decente na Câmara. Alguém que se interesse e lute pelas necessidades coletivas de nossa comunidade. Seu Henrique mirou Seu Luiz de cima a baixo com um daqueles olhares atarantados de “Ora, não me venha com resposta difícil!”, e depois de alguns segundos de silêncio atravessado na garganta, retrucou vitoriosamente: - Ah, então neste caso, muito obrigado pela confiança, Seu Luiz. Sabia que podia contar com o senhor. Mas tem certeza de que não está precisando de mais nada? Uns sacos de cimento extras para rebocar sua sala, um examezinho de vista? Uma chapinha nova pro sorriso ficar mais bonito também não é pecado pra ninguém, né...
E de excessos de exames de vista e escassez de exames de consciência a campanha foi sendo feita. Lógico, seu Henrique Leal deve mais uma e democrática vez ter concretizado seus objetivos. Na Câmara, arrotaria as mesmas falácias – elas são uma maravilha para preencher o branco do papel das nossas atuações legislativas... E daí se ganhava a eleição praticando assistencialismo barato? O povo gosta é disso. Se eu não fizer outro faz e ganha meus votos. Etc, etc... O fato é que Seu Henrique Leal continuaria. Reputação ilibada. De sessão em sessão, de discurso em discurso, faria do seu nome uma bandeira, Henricando Lealmente em nome do povo pobre que sempre o elegera.

Um comentário:

Eduardo vugo DUDUSÃO disse...

pSimplesmente a mais pura realidade vivida por nós!
Algo q deve ser combatido atraves de um voto consciente, causando assim exclusão destes tão convencidos "cidadãos Assistencialistas" para não dizermos cor...!
Eduardo Brito