quarta-feira, outubro 01, 2008



RELÍQUIAS DA 1295 (TAMBÉM CASA, TAMBÉM VELHA...)

Rafael Rubens 

Por acaso eu passei hoje em frente a, como chamamos comumente, casa de 2004. Tá, tudo bem, não foi por acaso... Eu só passei por lá porque fiz um desvio obtuso de muitos propositados graus para resgatar algum punhado de lembranças e depois escrever essa crônica. Lá estava eu de novo, em frente à calçada da 1295, na Antenor Navarro, absorto no limiar revisitado das minhas nem tão distantes memórias. Moramos ali de novembro de 2003 a dezembro de 2004. Digo moramos, porque (sem querer multiplicar o título do romance) éramos 12. Todos universitários (e bem feras, saliente-se), todos mais jovens, ingênuos e sonhadores (perdoem-me esta última redundância, tudo bem). Compartilhamos ali um bocado de experiências. Realizações, dissabores. Inda recordo da enorme sala onde (como não tínhamos móveis mesmo para ocupar o espaço) pré-adolescentemente jogávamos futebol e fazíamos torneios de vôlei; do muro que tinha uma simpática, apesar de modesta área de lazer para comes e bebes. Foi lá que foi feita a famosa feijoada, cujo último ingrediente fora uma cueca ardilosamente jogada dentro da panela (por uma infeliz coincidência, vestimenta de minha propriedade, logo eu, cujo único pecado cometido fora o de lavar sabadamente minhas roupas e participar de poucas colheradas da diversão...). Muita gente chamava de “nosso próprio Big Brother”. Apesar da comparação pobre, tudo que passamos ali dentro nos foi por demais enriquecedor. Foi um tempo que definitivamente nos tatuou com marcas de saudade. Nossas discussões político-filosófico-sociológicas (chamávamos assim), as brigas, os jogos da verdade que nunca explicitaram verdade nenhuma. Tudo isso... A palmeira lá no terraço nunca cresceu e o quarto lá do recanto da sala (o quarto fedorento, como batizamos) jamais foi utilizado; muito ácaro devido à umidade, muita mística devido ao homem que, no passado, achou de se enforcar lá dentro. Os vizinhos diziam que a 1295 era mal-assombrada. Eu sempre achei isso fantástico. Algumas das pessoas que moravam lá comigo chegaram a ouvir algumas vozes ainda. Eu jamais vi ou ouvi coisa alguma. Que pena. Este texto ficaria tão mais charmoso e chocante com a vivência de um episódio dessa natureza... Falando em barulho, impossível de não ouvir era o das latas vazias de leite que estrondávamos nas paredes da sala (quer dizer, eu não participava, mas é tão mais bonito colocar assim na 1ª pessoa do plural) durante o mais silencioso das madrugadas, com o único intuito de perturbar as meninas da casa. A sala fazia muito eco – imagine-se então por volta das duas da manhã... Pois é. Mesmo hoje, depois de calendariamente vencidos quatro anos, é bem provável que os nossos ecos ainda ecoem por ali. É o velho, porém sempre prático trocadilho: nós saímos daquela casa, mas aquela casa jamais sairá de nós. Eu me lembro do dia em que fiquei trancado do lado de fora, e a vizinha da frente – caramba, nós éramos loucos pela vizinha – me chamou pra lá e eu passei o dia na casa dela... Quando porventura o aluguel atrasava (quando eu digo porventura, entenda-se muito freqüentemente) e “Seu Zé Galdino” vinha nos cobrar, era só ele estacionar sua surrada D20 na calçada para iniciar aquele rebuliço: “Vá receber lá o homem, você... Eu não, da última vez fui eu...” Enfim. Eu inda fui recebê-lo um bocado de vezes. Abria o portão com um simpático “Bom dia, seu Zé Galdino!”, ao que ele retrucava seu-barrigamente: “Cadê? Já tem o dinheiro do aluguel?” E era sempre assim. Na verdade, nunca tínhamos o tal dinheiro do aluguel naquele exato momento, mas sempre dava-se um jeitinho e Seu Zé Galdino ia embora fulo da vida. Seu Zé Galdino era uma onda... Uma vez ouvimos um estrondo bem forte na porta que dava para o muro. Claro, corremos todos para os quartos e nos trancamos lá dentro, pois imaginamos que seria alguém arrombando a casa para nos assaltar (assaltar o que, meu Deus?). Ligamos para a polícia. Eles chegaram competentemente em pouco mais de uma hora e constataram o óbvio: não havia nada nem ninguém de suspeito nas imediações. No máximo fora algum gato de rua gateando-nos a atenção e testando-nos a (falta de) coragem. Etc... 1295, mais do que uma estrutura física de concreto. Ela anda muito mudada. A fachada está de pintura nova, não é mais o azul cor de céu a que éramos tão acostumados. Agora está meio mostarda (nada a ver). E tem até carro estacionado na garagem, na mesma garagem que em 2004 lotávamos de varais para pendurar nossas toalhas devidamente gravadas com nossos nomes em ponto de cruz. Mas, principalmente, a 1295 não presencia mais os nossos sonhos de futuro, quando conversávamos na calçada observando os carros que passavam apressados na avenida. Quando, no seu silêncio materialmente inanimado, a 1295 apenas nos confidenciava que o presente também tem pressa. O mesmo presente que hoje, tanto neste texto, como na velha casa da Antenor Navarro, comporta uma parte das nossas saudades. 1295, muito mais do que os quatro algarismos que indicam o trivial de um endereço postal. A velha casa da Antenor guarda em si um pouquinho de cada uma das nossas histórias, dos nossos anseios, fazendo-se para sempre presente na métrica desexata desse nosso poema épico chamado vida.

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