segunda-feira, setembro 01, 2008

ONIBUSMANIA
Rafael Rubens de Medeiros
Quando soubemos que Paradyso* viria dividir apartamento conosco, imaginamos de imediato todos os perfis disponíveis que pudessem se aplicar a ele. Seria extrovertido ou reservado? Recatado ou impulsivo? Enfim, Paradyso nos surpreendeu. Com seu jeito simples ele alimentava uma paixão incomum: ônibus. Isso mesmo, daqueles que andam apinhados de gente e sempre nos tiram a paciência no sempre demorado das suas esperas. Paradyso amava ônibus de todos os tipos: coletivos, rodoviários, particulares. Ele chegou numa tarde daqueles domingos extremamente dominicais, de futebol na Globo e programa Silvio Santos no SBT. Ao arrumar suas coisas, um dos objetos que manuseou com mais cuidado foi uma miniatura da Wbf turismo e pôs sobre seu computador com o orgulho de quem expõe seu mais precioso troféu. Naquele domingo ele não nos disse muita coisa não. Na noite de segunda-feira, porém, perplexicou-nos com a confissão de sua grande atração. Assumindo-se um busólogo (pois é, já dão nome a esse excêntrico estado de ser) de carteirinha, demonstrou-nos a dimensão da sua paixão e nos apresentou todas as miniaturas que ele próprio faz de caixa de creme dental desde os 10 anos de idade. Devem passar de 100. E é mesmo impressionante como ele pensa em cada detalhe. No fundo, não recria apenas modelos de ônibus. Ele constrói mimeticamente seu próprio recantinho de realidade quando se deita sobre um novo projeto. Percebíamos o brilho dos seus olhos enquanto nos mostrava cada modelo. Depois foram as histórias e mais histórias que consubstanciam o seu romance com aquele meio de transporte. Claro que não me lembro de todas. Mas de algumas em especial eu não esqueceria. Como na ocasião em que ele fez o itinerário completo de um coletivo em João Pessoa na paciência e na sofreguidão das suas 115 paradas. Fazer raiva a Paradyso? Muito simples. É só soltar o verbo contra alguma empresa de ônibus, qualquer uma. Até no murro é bem capaz de ele sair... Dia desses estávamos indo almoçar no centro quando Paradyso fitou seu olhar num ônibus estacionado, já meio velhinho e desbotado pela ação do sol e do tempo. Mas de longe ele percebeu que se tratava de um antigo modelo da Boa Viagem turismo, e de pronto começou a fotografá-lo. Queria aquela peça preciosa para aumentar o acervo dos seus quase 10 cds lotados de fotos de ônibus. O problema é que o dono do veículo que nos observava ali de perto, não entendeu muito bem as bem intencionadas intenções de Paradyso e o chamou num reservado. - Para que você quer estas fotos? Este episódio teria constrangido a maioria dos mortais, mas não a Paradyso, que conseguiu reverter a situação e se apresentou cerimoniosamente como um assíduo colecionador de imagens de ônibus, saindo de cabeça erguida e ego sorridente. Afinal, não é todo dia que se aperta a mão de um legítimo proprietário de ônibus. Pois é, este é o Paradyso. Há quem ache que vive num mundo de sonho. Mas também há quem diga que os sonhos são a substancia mais imprescindível a todo e qualquer ser humano. E também é bem verdade Paradyso não é apenas sonho abstrato. É também objetivo, finalidade concreta. Veio pra Campina Grande cursar Administração e um dia quer montar sua própria empresa (de ônibus, é lógico). E enquanto ela não sai da tabuleta de planejamento, ele vai criando seus protótipos. E já são muitos, vale salientar.
Definitivamente Paradyso é um aficcionado. Tanto que o pseudônimo tantas vezes utilizado aqui é adotado pelo próprio e provém do modelo francês Paradiso 1200 da Marcopolo, pelo qual ele dedica grande admiração. Acho que ainda vamos nos surpreender muito com Paradyso. Afinal, não é sempre que convivemos com alguém que nutre um amor tão profundo e incondicional, tão inimaginável mesmo aos nossos mais insistentes e rotuladores pre-conceitos. Definitivamente não é todo dia que compartilhamos experiências do dia-a-dia e quiçá do itinerário sempre conturbado das nossas vidas com um autêntico busólogo, como se autodefiniria ele mesmo em meio a um daqueles seus indescritíveis sorrisos no olhar.
* Nome trocado para garantir a privacidade (caramba, eu sempre quis dizer isso!)

2 comentários:

Eduardo vugo DUDUSÃO disse...

Estou falando não como um convivente de paradyso, mas como leitor assiduo deste blog, e por isso digo, essa foi melhor cronica que já li!
ESPETACILAR!!!!!
Eduardo Brito

Isaú Medeiros disse...

muito bom!
..mais uma vez vlw a pena os poucos momento de leitura que passei aqui ..minutos estes que estao ficando corriqueiros. :)

..mas fiquei curioso em uma coisa.. QUEM EH PARADYSO?? rsr


abraço primo!