terça-feira, setembro 02, 2008

JOGANDO CARTAS COM A SOLIDÃO
Rafael Rubens de Medeiros
Eu não amo a solidão. Mas também não tenho medo dela. Redundantemente , eu a encaro de frente, olho no olho, silêncio no silêncio. Érico Veríssimo tinha razão quando fez a sua Olívia barato-filosofar que a gente foge da solidão quando tem medo dos próprios pensamentos. Tudo que perturba, tudo que agrada, tudo o que masturba os nossos egos socializados é uma tentativa de saída para fugirmos dos nossos desnaturais estados de solidão. Digo desnaturais porque não acho a solidão natural coisíssima nenhuma. E discordo em gênero, número e grau daquela falaciazinha unanimizada de que nascemos sós. Antes de mais nada, porque não nascemos sós, muito pelo contrário, o ato de nascer é extremamente coletivo. Já percebeu o tanto de pessoas que fica em volta do coitado do bebê que simplesmente, inconscientemente nasce? Somos oriundos diretamente, cordão-umbilicalmente da vida de outro ser, que para nos conceber quocientou-se com outro vivente. E por aí vai. Silogismos à parte, só se é humano quando em sociedade. Contratos sociais ambulantes. Muito provavelmente é também por causa disso que a solidão assuste tanto as pessoas. Porque além de tudo, a solidão também as rotula. De? Anti-sociais, logicamente. É. Érico Veríssimo estava mesmo certo. Temos medo dos nossos pensamentos. E só pensamos sobre a solidão quando de fato estamos sós. Aí nos sentimos menos gente, e na maioria das vezes não vivemos esses momentos com a intensidade e a reflexão que eles merecem. Pois com toda a desmodéstia do mundo, eu prefiro aproveitar a minha própria companhia. Até porque ela é ótima. Em que outros momentos eu faria melhores incursões pelo interior do meu interior? Por essas e outras a solidão não me faz medo. Ao contrario, eu a convido para um sempre construtivo jogo de cartas. Que sempre ganho. Assusta-me sim a sozinhez acompanhada a que estamos sempre sujeitos. Porque a sociedade é excludente, jamais inclusiva dos perfis que fogem de suas convenções. É simples. Você não é bem sucedido no alto convívio social, logo, você é menos humano do que os outros e a solidão é o seu castigo. Quando eu era pequeno, bojo-assistia àqueles filmes americanos que passavam na Sessão da tarde e sempre reparava em como as crianças tinham medo de gente que morava só. Pois é, prolifera-se daí a idéia de solidão como uma coisa assustadora, triste, na melhor das hipóteses. Era inacreditável como eles faziam questão de mostrar o estado de ser só vinculado a alguma coisa ruim. Portanto. Agora há pouco eu estava me sentindo meio sozinho aí resolvi convidar todas as minhas saudades passadas e futuras para mais um desses impagáveis jogos de cartas. Elas sempre conservam suas cartas guardadas na manga. Que ficaram perdidas de um jogo anterior, possivelmente. Mas eu já estou acostumado com as suas jogadas. E até já as adoro. Afinal, o pára-choque de caminhão sempre me convenceu de que “a saudade é companheira de quem não tem companhia” e quem sou eu pra duvidar de um aforismo tão senso-comumente poético? Fomos foi ao jogo. Testa com testa. Eu, a solidão (não vou ser tão egoísta para possessivá-la de minha) e a recíproca que coexiste em todas essas coisas. E, adivinhem? Ganhei de novo.

2 comentários:

Nova Palmeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nova Palmeira disse...

SOLIDÃO foi o termo criado para dar nome ao ato de conversar consigo mesmo.