terça-feira, agosto 05, 2008

A VELHA SENHORA DA GETÚLIO

Rafael Rubens de Medeiros

Eu não sei o seu nome. Tampouco onde nasceu ou passou a maior parte da sua vida. Não sei da sua história, dos seus amores nem dos seus desaventos. Sei que mora ali, numa casa de aspecto antigo localizada na Rua Getúlio Vargas. Fica sempre à porta ou à janela (no primeiro andar) como se esperando por um sorriso, um “bom dia!” ou mesmo pela simplicidade de um olhar transeunte. É como se experimentasse algum prazer subjetivo e inexplicável em observar a vida que o próprio tempo lhe roubou passar desapercebidamente na calçada. Sempre pergunta as horas, como se tentando contar as frações remanescentes do tempo que ainda lhe resta. Tem sempre o mesmo sorriso fácil, a mesma expressão tranqüila nos olhos, a mesma voz mansa e gentil que nos faz querer ficar mais um pouquinho e conversar qualquer coisa a mais que não seja meramente a indicação cronológica dos ponteiros do relógio.
Seu mundo é o horizonte remoto e vertical até onde os seus olhos cansados e já um tanto míopes conseguem alcançar. Talvez não tenha noção do que o mundo aqui fora tenha se tornado. Ou talvez, em sua solidão desglobalizada e interiorana tenha muito mais consciência e mais noção de mundo do que qualquer um de nós que hipocrisiamos socialmente todos os dias. Dia desses (aliás, noite dessas, já que deviam passar das 20 horas) uma amiga minha ziguezagueva pelo meio da rua vindo apressada da universidade e eis que a velha senhora sai à porta, cumprimenta-a cerimoniosamente e diz: “não ande pelo meio da rua não, minha filha, é muito perigoso”. Minha amiga não pôde deixar de sorrir. Um daqueles sorrisos agradecidos e ternos de “pobre senhora, nem imagina que às vezes o meio da rua é o lugar mais seguro quando caminhamos a pé pela cidade...” Ela passou, e a velha senhora provavelmente a acompanhou com o olhar até o enrolar da próxima esquina, quiçá recapitulando e mnemoremoendo o inconfundível sabor de vida que passara tão perto. O conceito de vida é mesmo relativo, subjetivo como o olhar da velha senhora que panoramiza o mundo pela janela nostálgica dos seus olhos. Guimarães Rosa chamaria de “travessia”, depois desenharia um oito deitado na frente e poematizaria o momento para todo o sempre que a nossa sensibilidade fosse capaz de sugerir. Pois é só passarmos pela calçada da Getúlio Vargas que a velha senhora estará debruçada em seu pedacinho de mundo lançando-nos um desses olhares de oito deitado.
Tem gente que acha esquisito. Talvez por que a sozinhez alegre e anfitriã da velha senhora incomode os seus conceitos de futuro e de felicidade. Mas esquisito mesmo vai ser no dia em que aquela janela estiver totalmente silenciosa, totalmente vazia e descuriosa pelas horas apressadas que caminham em sua calçada. Porque os nossos passos descompassados e distraídos podem até não se darem conta, mas estarão para sempre fotografados pela lente bisbilhoteira de um olhar perdido; emoldurados no carpe diem inanimado na memória cansada e comovida da velha senhora da Getúlio.

Um comentário:

Samelly disse...

Eu detesto comentários do tipo "que texto lindo", mas a culpa é sua de eu não saber dizer outra coisa.

E o mais estranho de tudo e todo mundo descobrir que tem aquele mesmo olhar da senhora da Getúlio. É só saber pousar na janela certo.

Beijo recitado!

P.S:Acho que ela voltou pra te fazer companhia, não é? Espero que vocês não se desgrudem mais, rs