sexta-feira, agosto 01, 2008

POIS ENTÃO, DÊ-ME UMAS DOSES DE LIRISMO
Rafael Rubens de Medeiros

Acho que estou precisando de algumas doses de lirismo. Do lirismo aguçado que os meninos mais afoitos e perspicazes conservam sempre no mais curioso do seu olhar. Qualquer coisa que desdaltonize o mundo entediado que me cerca. A pior de todas as atitudes é quando deixamos de nos surpreender com coisas que a nossa cultura chama de simples, ou na pior das hipóteses, normais. Por exemplo, agora mesmo estávamos à janela um amigo e eu, e ele atentou meteorologicamente para o fato de nuvens carregadas estarem povoando o céu. Isso poderia ser a informação mais comum e banal do dia, uma vez que estamos em Campina Grande, onde o tempo sempre varia e vez por outra bate um temporal desavisado. Mas eu fiquei imaginando aquele mesmo cenário visto pela sempre filosófica ótica do olhar de uma criança (assim, pleonasticamente mesmo...). Quando eu tinha lá pelos meus seis ou sete anos admiraria a beleza e a imponência daquelas nuvens incrivelmente pretas que desafiavam o meu pueril medo de chuva... E aí a minha mãe provavelmente me reclamaria por eu estar chamando nuvens escuras de pretas, o que representa quase uma blasfêmia. Então a chuva passaria, mas por muito tempo ainda respiraríamos aquela invasiva e genuína poesia presenteada pelo tempo. Tempos de infância; tempos de poesia e de filosofia fácil. Aberto para sonhos e completamente fechado para melancolias ocidentais e contemporâneas.

Sabe aquela sensação de quando queremos escrever alguma coisa e simplesmente não nos ocorre nenhuma idéia? Talvez porque o ato de escrever seja constituído por muito mais do que idéias, mas de qualquer motivo que queira ser externalizado, libertado através das palavras, estas mesmas que têm o privilégio de navegar no oceano de emoções que os nossos sorrisos ou as nossas lágrimas às vezes tentam – em vão - esconder. Não estou querendo dizer que a poesia é algo místico, mágico ou coisa parecida, mas algo que está presente em qualquer olhar, em qualquer palavra, em qualquer momento, por mais entediado ou trivial que as nossas concepções adultas e ultrapassadas tentem nos convencer. E também às vezes me vem à memória a longínqua, porém intensamente vivaz, imagem da vaca que queria ser vista lá pras bandas daqueles baixios da serra Bodopitá – eu a vi e a denomino assim. Na beira da estrada, a vaquinha fazia qualquer coisa que fosse muito mais que apenas ruminar tranqüila o seu capim. Ela estava separada de todas as outras, devidamente equilibrada numa pedra um pouquinho alta, mas suficiente apenas para acomodar o apinhado das suas quatro patas. Contemplei-a da cadeira do ônibus à janela. E – puxa!- como eu maravilhei minhas retinas cansadas observando aquela cena ao mesmo tempo bucólica e excêntrica, poética e surrealista. Pensava comigo: que nome Salvador Dali daria a um quadro seu se pintasse o fantástico desta imagem? Foi a imagem mais lírica da semana, a mais inusitada apesar de paradoxalmente crível e deselegante. Talvez a elegância parnasiana definitivamente não se aplique a todos os casos de estética...

Dia desses estava folheando um velho livro de poesias e não pude deixar de me encantar com um poema de Manoel de Barros que havia muito tempo não me lembrava. Chama-se o apanhador de desperdícios. Que coisa bela seria “usar a palavra para compor nossos silêncios”... Fiquei pensando nisso enquanto caqueava qualquer motivo que fosse para redescobrir os meus impulsos de escrever. Talvez eu não queira usar a palavra. Eu a quero por completo, poetica e egoisticamente como todo e qualquer “amor que houver nessa vida”. Pois a poesia está inclusive no que sequer pensou-se em dizer ou poematizar, inclusive no silenciar do meu próprio silêncio. Eu não quero uma grande composição. Só um pouco de lirismo.


Um comentário:

Samelly disse...

"Sabe aquela sensação de quando queremos escrever alguma coisa e simplesmente não nos ocorre nenhuma idéia?"

Sei! Mas sei também que nossos olhinhos infantis (como diria Chico) também sempre estão lá, prontos para novas nuvens. Basta sabermos silenciar os olhares e chovem as palavras.

Beijos recitados, ébrio!