quinta-feira, maio 29, 2008

CONTO

QUATRO VEZES EMÍLIA

Rafael Rubens de Medeiros

Conheci-a. Conheceu-me. Em verdade, nenhum de nós tinha noção exata do que aquilo significava para o trivial do futuro que nos futurasse. Chamava-se Emília. Achei-a particularmente atraente. Ela (disse-me mais tarde) achou-me simpático e bem-humorado – sagrados tempos de democracia, em que temos o cívico direito de acharmos o que nos der na telha...


Era lá no La Costa. Recepção do casamento de uma colega de trabalho, que, pelo mais puro e cristalino amor do mundo matrimoniava-se com o filho do prefeito de sua cidade natal; em suma, uma ocasião daquelas em que temos de saber como usar aqueles dezenove e inoxidáveis talheres minuciosamente organizados em cima da mesa. Emília conversava com uma ex-colega de faculdade, a Cida. Nunca me dei bem com Cida – achava-a oportunista e inconveniente – mas quando percebi sua evidente proximidade a Emília, tratei logo de rever meus antigos e precipitados conceitos. Um rio não é mais o mesmo rio nem nós somos mais os mesmos ao atravessá-lo pela segunda vez... Heráclito tinha mesmo razão.


Apresentei-me cordialmente. E Cida naquele dia parecia mais simpática do que sempre. Cumprimentamo-nos tão efusivamente que qualquer um naquela sala julgaria que compartilhávamos deveras de saudades universitárias. Hipocrisias recíprocas à parte, dei logo um jeitinho brasileiro de me aproximar de Emília. E como ela me parecia muito mais bonita assim de perto... Nossa afinidade foi imediata. Ela ria com as namorandices que eu falava. E eu? Ah, eu falava com o seu sorriso...


Foi assim. Noite perfeita. Efemeramente perfeita. Emília me deu seu telefone. Eu lhe dei meu msn. E o primeiro beijo que deixamos se beijar deve ter durado pelo menos mais de cinco minutos, tempo suficiente para que as mesas paralelas aguçassem sua sutil e dissimulada curiosidade. Acho que naquela noite nós nos demos um ao outro quase por completo. E nossa completude só não se completou porque Emília precisava voltar mais cedo para casa. No dia seguinte teria de viajar bem de manhãzinha. Despedimo-nos com um daqueles abraços de tomara que a próxima vez seja breve e ainda melhor. Aquela foi a primeira noite em anos em que eu não morri de tédio num ambiente daqueles. Fui para casa pouco tempo depois de Emília, retrospectivando os sublimes momentos de alguns outros momentos atrás. O perfume de Emília ficou impregnado em mim. E por muito tempo Emília ficou impregnada nas minhas retinas, até que estas esmorecessem e se rendessem ante qualquer coisa que fosse muito, muito mais do que sono somente. Pois foi. Sonhei com Emília exata, do mesmo jeitinho de algumas horas pretéritas, sem nenhum cisco a mais ou a menos que fosse de maquiagem byroniana.


Dali a quatro dias nos falamos de novo. Ela me ligou. “Humm, Emília e seu celular de novo na área..” Quase explodo-sorri por dentro embasbacado. E ela deve ter percebido isso. Mesmo porque a palavra mais equilibrada e coerente que eu consegui tele-balbuciar foi “alô”. Depois disso os verbos escorregavam-me taquicardiados, nervosos. Senti-me um idiota. Tentei ser engraçado e disse um punhado de besteiras sem graça. Com as quais ela deve ter rido por mera educação. Mas marcamos. Quer dizer, ela mesma. E praquela mesma noite. Emília era desenrolada e sem muitas inibições, gostava de tomar a iniciativa. E eu desmachistamente gostava daquilo.


Encontramo-nos às oito. Fomos ao Café & Poesia. Conversamos, tomamos cappuccino e nos beijamos até que o relógio nos desalucinasse às onze e meia da noite. Emília era serena e envolvente. Sem machisto-mencionar que também era feministamente falante. Contava-me muitas coisas. Monologava minutos e minutos a fio, enumerando episódios e mais episódios, os mais banais, que ela própria vivera ou vivenciara. Emília era assim. Femininamente cativante.
Depois disso, falamo-nos no msn algumas vezes. Em vez de beijos, emoctions. Em vez de seu perfume, sua imagem pálida e digitalizada na webcam.


Eu também gostava de ouvir a voz de Emília no telefone. Ela tinha uma falinha arrastada de um suave tão suave que eu quase não percebia seus ocasionais errinhos de português. O amor (se é que era amor) é agramatical. Tanto que minhas palavras facilmente se despalavravam ante qualquer gesto mais chegado que Emília me tencionasse.


Quando nos encontramos pela terceira vez, eu ia ansioso. Era como se meu coração claustrofobiasse qualquer coisa que os meus olhos tivessem receio de denunciar. Mas Emília foi como sempre, lépida, sagaz. E logo tratou de silenciar qualquer silêncio que eu ainda trancafiasse na garganta. Foi direta. Sem delongas.


- O que está acontecendo exatamente entre a gente? Você me quereria acima de qualquer coisa?


Emília...


Ensaiei uma porção de respostas quaseadas. Mas todas naturalmente se mnemoperderam diante da dimensão de perguntas como aquelas.


- Ora, vamos lá - ela brincou para quebrar o gelo - são apenas três letrinhas. É só dizer sim ou não...


Devo ter respondido que sim, que acima de qualquer coisa. Mas estranhei aquela aparente carência repentina. Podia ser seqüelo-impressão da minha parte, mas Emília me pareceu naquele dia estranhamente tensa. Suas bochechas ruborizavam fácil, suas mãos escorregavam-se em desculpas bestas. E os seus olhos fugidiavam-se para todos os lados. “Você me quereria acima de qualquer coisa?”


Acima de que, exatamente? Aquilo ficou me martelando por um considerável pedaço da noite, depois que Emília e eu nos despedimos meio burocráticos, sem o ardor nem a naturalidade das vezes passadas. Estava claro que Emília queria me dizer alguma coisa. E que depois disso eu precisaria me decidir substantivamente. Apenas três letrinhas.


Passamos algum tempo sem nos comunicar. Algum tempo, umas duas semanas. Mas quando nos falamos de novo (e desta vez eu liguei pra ela) combinamos de nos ver. Sugeri no Vila Antiga. Bom para se tomar umas doses do vinho e da poesia daquele ambiente meio medieval. Emília aceitou lacônica, submissa. Era como se guardasse algo para me revelar no momento oportuno.
Emília.


No primeiro encontro foi fadalizada por minhas ilusões e romantices. No segundo foi mais solta, mais realista. No terceiro foi enigmática. E no quarto soropositivou-me seu grande segredo. Estatifiquei-me. Minha boca desassalivou-se de qualquer palavra que fosse. Ainda consegui murmurar um “como?” como se fosse para ratificar o letal que, perplexos, os meus tímpanos decodificaram. Três letrinhas somente.


- HIV. Positivo. Eu sou. Ah, esquece, sabia que não entenderia. Ninguém nunca entende...


Eu entendia menos ainda. Ainda tentei mecânico-dizer qualquer coisa, acovardando meus anteconceitos e minhas concepções de cartilha. Dissertei generalidades um tanto abstratas e depois calei-me novamente. Emília tinha os olhos fixamente fixos em algum ponto que só ela mirava. Era como se suas pupilas relampageassem algo de efêmero, de tão tão efêmero que chegava a parecer eterno.


Emília transparecia uma raiva calada e evidente. Raiva provavelmente de si mesma. Desmodelo pouco vendável na vitrine sem manchas da sociedade.


Passamos pouco tempo ali. E saímos após o tudo que o nada nos permitira. Palavras, quaisquer, era o que menos importava. Pedi um tempo a ela. Para pensar, quem sabe. Nunca sabemos. De quase nada.


Ainda nos falamos uma ou duas vezes. Ela que me ligava. Depois, nem isso. E eu fingindo que não ligava. Desdeando-me em momentos que jamais voltarão.


Eu nunca mais vi Emília na minha vida.


3 comentários:

Ana Virgínia disse...

Três letrinhas somente: DOM.
Muito lindo, Rafael!

Mickey disse...

O conto traz excelentes discussões sobre gênero: machismo X feminismo. Nele é latente o discurso antí-feminista do narrodor-protagonista. Há ainda a temática do preconceito com os portadores da AIDS, doença que inicialmente foi chamada de 'câncer gay' e que desconhece fronteiras de sexo, cor ou religião.

Isaú Medeiros disse...

Ehh, cada vez que passo por aqui mais uma surpresa... Muit bom!

Abraço