terça-feira, maio 06, 2008


DÁDIVA DESAVISADA

Rafael Rubens de Medeiros

Parecia que as chuvas tinham arredado de vez. Fez muitos dias de sol, de vento seco e forte, e mesmo de alguns redemunhos. Muita gente estava achando bom, porque as estradas de barro estavam de novo transitáveis. Confesso que eu também já estava me acostumando com a idéia. Um sereninho aqui, outro acolá, mas no geral mesmo, aquela conhecida e velha estiagem sertaneja.
Mas como surpreendentes cento e doze milímetros de resposta pluvial fazem o sertão desabrochar numa manhã diferente! Sol brando, neve na serra, água dando na canela. E que água cristalina e linda! A criançada se divertindo, os mais velhos reciclando experiências de senso comum.
A natureza é mesmo generosa. O dia de São José passou faz tempo, a flor da jitirana já cansou de desabrolhar na terra pantanosa, mas as chuvadas ainda não se cansaram de bater. Estamos em maio. Mês bom de chover. Bom pra a lavoura finalmente frutificar o trabalho árduo e suado do homem do campo. Bom para reavivar os cursos das sangrias dos açudes da região.
A chuva de ontem veio no meio da noite, de mansinho, enquanto o sertão cochilava tranqüilo e sereno e amainava um pouco do calor que escaldara boa parte do dia.
Quando chove no sertão é assim, com aquele sabor de presente recebido. Nada como acordar de manhãzinha aspirando aquele inconfundível cheirinho de terra molhada; nada como contemplar o namoro matinal e adolescente dos passarinhos que festejam ao nosso redor; nada como se deixar levar na sinfonia do maravilhoso cântico dos sapos, que, absortos de tudo e de todos, sapo-coaxam a sua indisfarçável e girina alegria na lagoa.

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