quinta-feira, maio 08, 2008


AFINAL, ONDE ESTÃO AS RAPOSAS DO SERTÃO?

Rafael Rubens de Medeiros

É sempre a primeira pergunta que me faz um padre amigo meu sempre que regressa à nossa pequena e paraibana Várzea. Não sei como nunca me fiz essa mesma pergunta antes. Talvez eu sempre na tenha tomado apenas pelo lado literal da coisa. Quando ele me perguntou desta vez – há uma semana aproximadamente – não consegui pela primeira ocasião imediatar uma resposta exata e formulada. Na verdade comecei a refletir sobre a dimensão semântico-cultural dessa questão. Porque, afinal, onde estão as raposas do sertão?
Dicionaricamente falando, a raposa é apenas e desglamurosamente aquele mamiferozinho astucioso de rabo peludo e focinho estreito que age sorrateiramente nos galináceos terreiros sertanejos. Mas, como diria João Cabral de Melo Neto, “isso ainda diz pouco”. E põe pouco nisso (com a licença da palavra do grande e pernambucano escritor).
A raposa simboliza toda a inteligência e toda a esperteza do homem do sertão, que precisa dar nó em pingo d’água ante as agruras das constantes estiagens e da falta de recursos na região.
Ela também pode ser vista como uma mascote cultural característico da caatinga, como, aliás, também o são o jumento, o bode e o cachorro vira-lata. Quem não conhece alguma história, uma que seja, de mordida de raposa doente? Quem, ao peregrinar por alguma das inúmeras veredas deste grande sertão não aspirou àquela famosa e inequívoca catinga de raposa?
Pois é, no sertão é assim. Onde se imprime a cultura no sangue. Onde aprendemos a viver sertanejamente. Somos todos raposas quando precisamos ser, porque acima de tudo ser sertanejo é amar o pedaço de terra quente onde andançamos e malabarismamos vulpinamente pra sobreviver.
O problema é que a cultura sertaneja está aos poucos sendo engolida pelo redemunho da cultura metropolitana. Aos poucos nossas raposinhas remanescentes estão sendo acachapadas pela influência pós-moderna da multimídia e do consumismo barato irrefletido.
É, a globalização trouxe muita coisa. Trouxe a coca-cola e o hambúrguer a cada canto, universalizou a moda do jeans e pouco a pouco está norte-americando o que sobrevive da nossa tradição regional.
Nossas raposinhas devem estar escondidas nas últimas locas de pedra que ainda não foram dinamitadas em nome do progresso capitalista. E que sobrevivam. Porque eu inda quero terapiar meus ouvidos com as inconfundíveis notas oriundas dos seus uivos peculiares e vez por outra da de cara com uma delas – mesmo que seja pelo bel-prazer sertanejo de arrepiar os cabelos da cabeça – numa das ainda tantas estradas de barro do sertão.

3 comentários:

Ana Virgínia disse...

É isso aí, Rafael. Nossas raposas estão sendo devoradas por outros animais, como as águias(símbolo norte-americano). Mais ainda assim, e talvez mais do que nunca: Deus mesmo, quando vier por essas bandas, que venha armado!

eduardo disse...

A verdade é que a maioria de nossas raposas ja estão devoradas, porém, se usarmos de uma consciência que nem a sua, ainda podemos reverter a situação.

Nova Palmeira disse...

As raposas foram estintas! Filhotes tentam rasgar aqueles ventres em prcesso de decomposição.