domingo, abril 20, 2008

CONTO


MARIDO POR UMA NOITE
Rafael Rubens de Medeiros

Quando conheceu Marilene, Josival teve a certeza de que estava diante da mulher de sua vida. Como de fato foi mesmo. “Até que a morte os separe” – o padre pronunciou no altar. Casaram-se sem muita pompa. Um punhado de convidados, um garrote morto, um baile modesto; tudo, apesar de pouco, era mais do que suficiente para estampar a mais viva felicidade nos olhos do ainda jovem Josival. Ia ele entrar na casa dos trinta. Mas seus amigos mais íntimos já brincavam: “Eita, Josival, meu amigo, ficando pra rapaz velho, hem...” Ele não se incomodava não. Não era namorador nem nada, mas no âmago de si, sentia que o destino lhe reservava algo. Nunca fora muito desafeiçoado e coragem de trabalhar não lhe faltava. O que mais uma mulher poderia querer ou exigir mais para um casamento confortável? Era de fato um cabra direito, como todos à sua volta costumavam dizer durante as fofocas menos maldosas.
Filho único, Josival perdera a mãe ainda aos dezesseis, mas conservava vivas suas recomendações e conselhos quando o assunto era casamento. Dona Irene fora mulher de bons hábitos e sempre conversava com seu filho sobre o significado além-dicionário do matrimônio. Casamento era coisa séria, sagrada. O que Deus une ninguém jamais separará. Etc. “Eu quero casar, quero fazer uma mulher feliz como ela nasceu pra ser.” Além disso, sem querer parafrasear Machado, Josival também sonhava em transmitir a alguém o legado da sua miséria. Em seu primeiro filho poria provavelmente o nome de Antonio, para chamar de Neto e homenagear o seu velho, que já cambaleava lá pelos setenta anos. Moravam só os dois, Josival e o pai, naquela casa antiga e tradicional, que na verdade era uma verdadeira relíquia da família.
Por morar só com o pai, Josival não saía muito, aliás, quase nunca mesmo. Não se perdoaria se algo viesse a acontecer a Seu Antonio enquanto estivesse se esbaldando em alguma fuzaca por aí...
Todavia, reza a máxima universal que toda regra tem sua exceção. Pois bem. Vamos à exceção do nosso cuidadoso Josival.
Devias ser sábado, mês de setembro. Novena pela região, muita gente reunida, e depois do costumeiro e vigarioso sermão de sempre aquele forrozinho. Uns amigos vieram convidar Josival.
- É na casa de Dona Ana de Joaquim Mocó, lá no Xique-xique. De sete horas a gente passa por aqui.
Convite feito, cartas do destino traçadas. Josival saiu animado. Seu Antonio ficou em casa, com um reumatismo dos diabos.
Quando Josival chegou, a novena já ladainhava lá pela metade ou mais. Melhor assim. Bom mesmo é na hora da “paz de Cristo”, quando a gente revê os amigos...
E como tinha gente naquele dia. Gente inclusive que Josival nunca tinha visto. Muitas moças da redondeza toda estavam por lá, porque depois da novena ia ter forró até o dia amanhecer. Há uma filosofia interessante para se descrever as mulheres: algumas são bonitas, outras são lindas, outras são especialmente formidáveis. E foi desse jeito. Por isso que quando viu Marilene Josival teve aquela certeza. Era uma jovem com todos os requisitos para ser chamada de bela. E, além disso, possuía uma malandragem aguçada em seus olhos miúdos. Josival nunca a tinha visto antes, mas parecia que a conhecia de sua vida toda. Era, era como se já tivesse sonhado com ela.
Dançaram muito naquela noite, e sempre que Josival sentia seus olhos se perderem nas negras e sertanejas pupilas de Marilene aquela aguda certeza aumentava. Meus Deus, seria finalmente ela? “Sim!” - disse para si mesmo; “sim!” - repetiu exatamente sete meses depois, quando, numa manhã ensolarada de um abril chuvoso, o padre lhe fez as burocráticas e sagradas perguntas que só se faz a um noivo no altar.
Casado! Josival! Quem imaginaria? De casa feita e aliança no dedo esquerdo, Josival se sentia um tanto mais homem. Era como se estivesse cumprindo parte de uma missão que Deus lhe dera. Sim, senhor, um homem melhor; um homem muito mais homem. Homem do qual com toda a certeza Dona Irene se sentiria orgulhosa de ter rasgado o próprio ventre para parir no mundo. Josival chega sorria por dentro. Sorria o sorriso dos justos. O sorriso de quem havia merecidamente tomado uma dose a mais de uísque barato. Assim ficava mais fácil sorrir pra fora e cumprimentar os convidados. Havia convencido Marilene a levar Seu Antonio para morar junto com eles, afinal o coitado não poderia ficar sozinho para morrer à míngua sem que tivesse ninguém nem pra lhe botar uma vela na mão quando o impiedoso momento um dia um dia resolvesse dar as caras...
Portanto. Quem naquela noite haveria de dizer que Josival não estava feliz? Finalmente tinha chegado ao encontro consigo mesmo. Eita, que viver é bom demais da conta... Alguém duvidava? Pois se alguém duvidasse que olhasse nos olhos do alegre Josival e se convencesse do milagre que é viver quando se encontra o sentido que tanto se procura. E Josival se sentia vivo. Sim, senhor. Queria mesmo era subir no alto do mundo e gritar para quem pudesse ouvir o quanto a vida é sagrada e maravilhosa. Ele, Josival, achava.
Talvez por isso, talvez pela intrigante e absurda falta de quaisquer pistas, ninguém tenha entendido até hoje.
Poderia não ser o alto do mundo, mas era mais alto do que parecia. O fato era que a casa recém construída de Josival e Marilene ficava perto de uma inclinação rochosa muito aguda que se erguia imponente no meio daquele sertão que o nosso Josival sempre amou. Era um lugar interessante para se observar os pores-do-sol em dias de saudade e visibilidade razoável. O Serrote da Pia ficava a uns quatrocentos metros da recém erguida casa de Josival e Marilene. Era assim chamado por se assemelhar em muito com uma pia de lavar roupa. Josival gostava particularmente de toda aquela aquela imponência, de toda aquela altura altamente íngreme e desafiadora. Era como se lá de cima o sujeito se sentisse mais perto do céu...
E muito provavelmente até hoje lá por aquelas bandas ainda deve ressoar o eco dos pensamentos e das razões secretas que fizeram Josival tomar seu último impulso. Ninguém, nem mesmo a desposada Marilene, viu Josival irromper madrugada a dentro para avistar muito mais de perto o quebrar da barra e, num ímpeto decidido e voraz, sinonimizar vida e morte em meio a suspiros e remorsos entrecortados. Seu Antonio nunca entendeu. Nem o como nem o porquê de nada; e em seu desespero de pai que deixou de ser pai simplesmente calou-se. Afinal, não é preciso explicar nem dizer mais nada àquele mormaço morto e entorpecido que banha os princípios de manhã sertanejos e que lhe ficou pra sempre no vítreo dos olhos que um dia olharam o pequeno Josival se transformar num homem feito.
Morto e entorpecido. O coração e o semblante de Seu Antônio ficaram para o pouco do sempre que inda lhe restava.
Pois também foi assim que encontraram o pobre Josival na manhã meio nublada que sucedeu sua própria manhã. Inerte e totalmente arrancado da vida que seus próprios olhos esbaldavam na noite passada
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Um comentário:

Leandróide disse...

Olá, gostei muito da sua narrativa. Gostaria de te convidar a ler meu ebook de contos Modelos e outros contos. Está disponível em: http://www.overmundo.com.br/banco/modelos-e-outros-contos-ebook-de-leandro-andrade.
Boa leitura!
Abraço.