sábado, fevereiro 16, 2008


REFÚGIO: O CASO DA GAVETA DO CRIADO MUDO. A PSICOLOGIA E OS ESPAÇOS DA INTIMIDADE

Bianca Renally da Costa Agra e Susana Garcia de Souza

Um criado-mudo pode revelar toda a vida e intimidade de alguém. Naquele móvel, ali do lado de nossa cama, a gente guarda pedacinhos da nossa vida. São agendas, fotos, livros que lemos ou que pretendíamos ler mas não tivemos coragem/tempo, cartas, bilhetes escritos em guardanapo, contas a pagar, preservativos, remédios, amores, desamores, coisas que nos trazem boas lembranças, coisas que gostaríamos de esquecer, e até a embalagem do lanche da madrugada que tivemos preguiça de jogar no lixo. É, até lixo a gente encontra no criado-mudo.

A gente sai jogando tudo na gaveta do criado-mudo, e de repente, quando a gente abre, é como se estivéssemos remexendo o pré-consciente/inconsciente. Revivemos as sensações, emoções, mágoas, alegrias, decepções, histórias que nem lembrávamos mais! De repente nos pegamos lendo uma carta de um ex-namorado, ou vendo as fotos de um amigo que se foi, e as lágrimas escorrem pelo rosto, como que uma tentativa de reviver as boas épocas.

Nesta tentativa de reviver os momentos ou fazer com que eles se prolonguem o máximo possível, especialmente aqueles que nos proporcionam sensações agradáveis, acabamos guardando lembranças, recordações, sentimentos, objetos, que possam trazer à tona resquícios e nuances de algo já vivido.

Por outras vezes, também há aquelas situações que acabamos jogando na gaveta sem ao menos vivê-las. Coisas que temos vontade de fazer, aquele amor que não tivemos coragem de declarar, sonhos, expectativas, e até aquela raiva que não expressamos.

E então, ao nos depararmos com a gaveta cheia, quase transbordando, nos reconhecemos em cada detalhe, em cada objeto guardado, em cada sentimento que aquele objeto representa. Talvez, é nessa hora que é chegado o momento de rever a nossa vida, mexer nos pertences, revirar as coisas, deixar tudo suspenso, e finalmente, “organizar”. Organizar o desorganizado, que inevitavelmente, num futuro próximo, virá a ser novamente uma bagunça organizada.

Isso é vida! Passamos boa parte das nossas vidas, ou melhor, praticamente a vida toda guardando, selecionando, classificando coisas, e até pessoas, numa tentativa inútil de pôr ordem no caos, mas o viver nos encarrega de mostrar que tudo está suspenso, nada tem lugar, tudo muda, se transforma, o estado das coisas é efêmero e a gaveta sempre estará cheia, e nunca organizada.

Portanto, deixe a gaveta aberta!

Um comentário:

Samurr disse...

Interestinghtr post
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