segunda-feira, janeiro 07, 2008

CONTO


A VÉSPERA DA VÉSPERA
Rafael Rubens de Medeiros

Era terça-feira, simplesmente como sugere a própria nomenclatura, terceiro dia da semana, que vai amarelando no calendário da parede. Era uma terça-feira como qualquer outra. Mas não era uma terça-feira como qualquer outra. Era também véspera da morte de Jacinto. Sertão...

Mais ou menos às seis da noite a lua aparece lá no fio do horizonte como que para brincar uma última vez com a sensibilidade que lhe restara do tempo de menino. Encostando nas poças d’água, esta bebericava o que parecia ser os delírios dos primeiros amantes da noite. “Eita, Geoná, a mãe da lua, escute... Ô coisa boa...”

Mais adiante um gatinho bebia água num barreiro, pronto para ensaiar suas sorrateiras escapadelas de rapaz solteiro e malandro. Quando a lua batia nos galhos do velho mofumbo em frente de casa e o vento oscilava suas folhas cansadas e sonolentas os pedregulhos serviam de palco para a curiosa coreografia da sombra, que o mesmo mofumbo velho não se cansava nunca de ensaiar. Tudo calmo. Menos o coração de D. Geoná, que colocava na mesa os pratos de porcelana, e estranhamente se lembrava dos passeios da adolescência, do baile da novena, da queda em que ralou muito mais que o joelho...

Na sala só os quatro filhos, que conversavam conversas de filhos. Até o pequeno Manoel, de quatro anos, que esbanjava olhares de filósofos e palavras de sonho. O coração de D. Geoná cada vez mais apertado, apertado como o primeiro sutiã que Tia avó Inácia lhe presenteara aos quatorze. E Jacinto, longe...

Provavelmente nem reparara que a lua tinha se escondido entre as nuvens, e insistia em conversar com ela. Suas conversas mais duradouras sempre se basearam no silêncio absoluto de suas palavras.

- Jacinto! Já ta botado!

Os meninos correram pra mesa, embora soubessem que o primeiro a se sentar à mesma, era, por direito, Jacinto. Pelo menos até àquela terça. E D. Geoná os servia, em porções milimetricamente iguais, exceto Jacinto, que sempre, por direito, comia os melhores pedaços de carne. Como de costume, D. Geoná havia se banhado e agora já fazia menos calor para ingerir o feijão macaça exagerado no caldo e a sopa tradicionalmente bem quente. O ato de se banhar era sempre a última coisa da tarde e a primeira da noite. Para isso, sempre usava os mesmos dois litros d’ água (de preferência da água do pote da “boca quebrada”, que mantinha a água mais fria) e o sempre prático e eficiente sabonete de coco. Seu pai lhe ensinara que o jantar era algo do tipo sagrado e higiene “era coisa bem vista aos olhos de Deus”...

Naquele jantar não conversaram muito. Dava pra ouvir inclusive as vacas do curral, espantando as muriçocas com o rabo. E o pequeno Manoel levou um tremendo carão ao tocar puerilmente no assunto. Jacinto engolia a sopa em goles grandes, depois da janta sempre se sentava na cadeira de balanço lá na calçada, arrotava e pensava na vida.

- Geoná... e se eu morrer? Você sabe... como é que fica? Você ainda tem trinta e nove... e os meninos? Você sabe...

- Besteira, Jacinto...

- Ora besteira... eu num confio naquele amaldiçoado de jeito nenhum. Você sabe o que e andou dizendo por aí. E você sabe que ele tem coragem e calibre pra isso... Ei, nunca se esqueça que Mané quer ser doutor advogado...

Aí D. Geoná fez um tremendo e desumano esforço para disfarçar a lágrima que insistia em saltar de seus olhos castanhos-esverdeados sempre maternalmente ternos e suaves.

Lá dentro os meninos brincavam absortos e despercebidos da dimensão do diálogo lá fora. Era a última noite do pai em casa e a véspera da primeira deles para a vida inteira. Mas eles não desconfiavam disso não. Nem mesmo o pequeno Manoel, que sempre parecia ver além da janela dos seus pequerruchos e cândidos olhos.

E Jacinto sobrepensava. Iria. De qualquer jeito. Chegaria lá bem de manhãzinha. Alguém tinha de ir mesmo... Era direito, não era?

- Jacinto, deixa isso pra lá...

D. Geoná não entendia. Já tinham deixado pra lá demais. Tava no direito. E se fosse preciso morrer, morreria. Melhor morrer com uma bala lhe atravessando o peito do que com o remorso atravessando o resto mal dormido de suas noites.

D. Geoná já se calava. Observava o marido, que fumava tranqüilo e despreocupado para qualquer um que não ousasse olhar além das próprias pestanas.

Fumar sempre fora o seu único vício. Desde os oito quando seu pai lhe fez acender o primeiro cigarro de fumo. E desde então era assim. Fosse caminhando e achasse pelo caminho um pau de lenha ou mesmo uma brasinha que fosse lá ia Jacinto se acocorar e acender mais uma piolinha para desparecer e descansar as idéias... Sua mãe era contra. “Isso um dia termina te matando...” Sábias e proféticas palavras de mãe, que só querem o bem do para sempre filhinho de colo... Mas Jacinto não dava ouvido. Quando tava com um cigarro no canto da boca, ele desopilava. Era aí que as suas preocupações do dia evaporavam e saiam mirabolando junto com a fumaça que se espalhava gás-carbonicamente pelo ar...

Estava ficando tarde.

E os meninos já sonolentavam pelos cantos pau-a-piques da sala... Como fazia quase todas as noites, Jacinto pegou um por um e colocou em suas redes, e como todas as noites, também não foi desta vez que beijou cada um deles “como se fosse o único”. Não murmurou palavras de afeto ao deitá-los, nem contemplou suas facesinhas infantis que também tinham um tanto e suas.

D. Geoná também já se recolhia e esperava apenas o marido, que tinha ido lá fora uma derradeira vez, talvez simplesmente para urinar, talvez para banhar-se uma última e merecida vez na claridade compreensiva daquele luar sertanejo que aprendera a amar desde pequeno.

Guerreiro ainda andava acordado por essas horas, amarrado no oitão da casa e arrastava a corrente, e se coçava nas pedras para afugentar os carrapatos. Chegava mesmo a grunhir baixinho enquanto se esfregava no pedregulho, mas logo continha seu choro de eterno filhote, pois temia que isso incomodasse Jacinto.

Mas Jacinto veio se aproximando amistoso e devargamente lhe acariciou as orelhinhas aquecidas e companheiras de cachorro pé-duro. Como era tão mais fácil expressar caladamente a Guerreiro seus sertanejos sentimentos do que fazê-lo aos próprios filhos. Entre carícias raras e sinceras e ponta-pés bem machucáveis que explodiam nos átimos de raiva e impaciência, se baseava a relação de Jacinto para com Guerreiro. Mas Guerreiro sobretudo o amava. Um amor agreste, incondicional, que se revelaria naquela carreira doida, nos queixos desgovernados, no pavor e na tristeza dos seus olhinhos caninos e daltônicos, na sede muito além d’ água fatalmente contida ao por fim avistar o batente de casa. Aqueles mesmos olhinhos jamais esqueceriam o choro de D. Geoná, cujo coração, aos baques, já suspeitava de quase tudo. Aqueles olhinhos também jamais esqueceriam de Jacinto.

Jacinto tinha sono. Suas pálpebras já cambaleavam meio indecisas e receosas. Ao primeiro e inevitável bocejo deixaria em sua quietude o melhor amigo que tivera na vida e na morte. Iria dormir seu derradeiro sono amanhecível e quiçá sonharia.

Agora entrava cuidadosamente para não acordar os meninos, passava a tramela na porta e ia se deitar, sem que seus medos mais adolescentes suspeitassem do plano traiçoeiro, da fogueira estrategicamente colocada, do abalo súbito e indistinguível que estrondaria em seu peito e do pranto irremediável de D. Geoná e os meninos...

3 comentários:

Nikinho disse...

Oi Rafael. Espetacular teu blog. é por aí mesmo. Adorei o poema Reflexão. Estejamos em contato. Espero tua visita no meu blog http://literalmeida.blogspot.com
ou pelo Google procurar por Retalhos do Modernismo.
Um grade abraço
Luiz de Almeida

Ana Virgínia disse...

Infinitamente, lemniscatamente MARAVILHOSO. Só acho que falta um "oito deitado" no final do conto!

Fernanda Medeiros disse...

Esse nome "Geoná" é tão lindo *.*
Não sei porquê. ;D
"Um amor agreste, incondicional..."