terça-feira, outubro 09, 2007

Retrato estampado
Emília Dantas

Lacunas. Espaços que ficam assim incansavelmente dentro de mim. Espaços que querem ser preenchidos por alguma coisa que não sei ao certo definir. Coisas que ficam assim sem resposta, é como se você estivesse perdido em uma tarde chuvosa, onde as horas não oferecem nenhuma distração. Só passam. Só caminham. Apenas fazem girar os ponteiros daquele relógio que está ali suspenso na parede. E eu fico aqui tentando descobrir no girar dos ponteiros de um relógio algum tipo de poesia.
E as lacunas? Ah! Continuam aqui querendo alcançar alguma coisa que faça verter os meus olhos para outra imagem, e transformar o tic-tac dos segundos em uma melodia qualquer. Quem foi mesmo que inventou essa história de tempo?
Há dias em que a noite chega e não se sabe dizer o que restou do dia, se as horas só passaram por entre os ponteiros de um relógio ou por esses afazeres tão cotidianos, e aí você se pergunta se realmente vale a pena correr tanto, quando não se sabe ao certo aonde se quer chegar. E aquelas lembranças que há tanto não se lembrava acaba por invadir o espírito de alguém que olha por acaso uma fotografia que não é antiga, nem recente; foi tirada no mês passado, em uma daquelas tardes de domingo que se tem a impressão de que tido foi um sonho daqueles que você fica perturbado quando acorda. A imagem de duas almas jovens e repletas de planos tão diferentes, estampada de branco e preto de repente trazem uma saudade que não se sabe sequer sentir, mas ela insiste, está ali perfumando com cheiro de terra molhada as emoções de uma mesma pessoa.
Retrato estampado de um amor antigo que se julgava acabado, e agora se faz renascido e se confunde com esses planos tão diferentes que insistem em seguir o mesmo caminho. Por qual mistério esses caminhos se cruzam?
Há dias em que a noite vai passando e não se sabe porque certas lembranças trazem uma saudade tão inquietante, talvez porque o acaso mostrou sem querer em um retrato que não está amarelado pelo tempo, dois sorrisos jovens que talvez desconheçam seus próprios sentimentos.
Há dias em que a noite escurece sem que se passe a mesma saudade diante do mesmo retrato contemplado por acaso.

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