quinta-feira, julho 05, 2007

(CONTO)

O MATERIAL
Rafael Rubens de Medeiros Não havia passado ainda das duas da tarde. Mas o sol já abrandava e agora lhe queimava menos as beiradas do nariz rosado e semi-descascado. Além disso, sua sombra já não tremia tanto na calçada. Tudo anunciava o fim enfim de uma agonia torturante que lhe fazia fremir as carnes só de lembrar do ocorrido havia muitos minutos e alguns outros e preciosos segundos. Sede, um pouco de cansaço e o suor já pouco salgado que há muito exalava de suas axilas. Exclamou com força e medo de ser ouvido ao mesmo tempo: “É isso aí, porra!” Só mais alguns passos... - Como assim? Eu num tô acreditando não... Mas isso é uma droga mesmo. Mas, rapaz, como é que fui esquecer justamente o mais importante? - Pois é hoje sim senhor. Sexta-feira, quatorze de janeiro. - O senhor tem certeza que tem certeza? - Olhe, eu só vou repetir mais uma vez. O senhor precisa trazer aqui identidade, CPF, 14 miligramas do material e um documento formal assinado pela sua mãe ou pela sua esposa. E até às duas e meia, porque o nosso expediente acaba de duas e meia. Claro? E as primeiras gotas de suor começavam a descer pelas suas costeletas um tanto mal feitas. Maldito material, onde é que o tinha deixado mesmo? E por que aquele desgraçado não chamava logo pelo nome? Material, um eufemismo, decerto. Naqueles ambientes se precisa muito deles... Num lugar envidraçado, de oxigênio refrigerado agradável e artificialmente por um ar condicionado que custa os olhos da cara! Realmente dá pra se sentir mais ou menos humano ali. Sim, dizer material era com certeza muito mais certo e muito mais bonito... O caminho de volta pra casa nunca lhe parecera tão tortuoso e tão íngreme. Mesmo a Praça da Bandeira nunca lhe parecera antes tão distante. O cadarço do seu tênis topper futsal preto, 22 reais, comprado quatro dias antes numa promoção arrebatadora de queima de estoque na Aluísio Calçados já havia desamarrado três teimosas vezes. Por isso a solução: dera-lhe um nó cego por cima da laçada e apertara com toda a força. “Desamarre de novo amaldiçoado...” Só mais quatro quilômetros de ida e seis de volta, pensava consigo. Se tivesse um vale, um que fosse, pegaria o 444 e tudo estaria resolvido. Economizaria uma hora, muito embora pagasse por ela dois reais e quarenta centavos a mais. Fazia os cálculos mentalmente para ver se a pé era realmente mais econômico. Suor, sede, um pouco de cansaço, dores musculares. Dois reais e quarenta centavos... O 444 passava bem em frente à sua casa. Lembrava disso claramente, pois sempre se acordava de tarde quando ele passava fazendo barulho. Ir ou não ir de ônibus? Eis a questão. Uma questão absurdamente pequena, é certo, mas a (embora inconsciente) intertextualidade shakespeareana fazia-a tomar grandes dimensões. Não, nunca havia lido Shaskespeare na vida, tampouco sabia quem era Hamlet, mas se encontrava bem no eixo do dilema universal. Três reais no bolso e uma dúvida na cabeça. E ainda aqueles malditos magrelos que ficam encostados nas paredes contribuindo para aumentar ainda mais a sua dúvida: “Tem vale e tem passe, olha o vale, olha o passe! Vale é um real, vale é um real, vale é um real...” Por que cargas d água eles eram sempre tão magrelos? E a sua dúvida aumentava. O temo já avançando... - Psiu! Vai de moto? Eu levo por dois! - Vou não, meu amigo! O tempo avançava... Implacável o tempo. Quando era pequeno se agarrava nas portas dos ônibus e passeava livre e gratuitamente pelas ruas da cidade. Tudo era muito perigoso, mas tinha um gosto de aventura irresistível. Livre e gratuitamente... Não, se o fizesse agora provavelmente seria preso ou coisa parecida. “É, o jeito é ir na droga do ônibus mesmo.” Pensou num ímpeto e em voz alta isso. Ser preso e ainda chamado de pão-duro? Vote! É, no ônibus com certeza. Caminhava. Agora decidido e em passos mais largos ainda. A próxima parada do 444 ficaria a uns quatrocentos metros dali. Sensação de alívio e um pingo de chuva bem no meio da testa. Chuva, por incrível que pareça, chuva mesmo. Campina Grande e o seu clima doido e meteorologicamente indeciso... Caminhava. Transeuntes apressados. Caminhava ainda mais rápido. Transeuntes ainda mais apresados. Mais pingos de chuva... Avistou enfim a parada do outro lado da rua, a distância era já pequena. Exatamente o seu ônibus. O famigerado, o próprio, o dito cujo, o 444. Apressou-se ainda mais para atravessar a rua. Curiosamente nem mais andava, nem mais corria, parecia antes que ensaiava uma marcha atlética. O ônibus bem à sua frente, cada vez maior, e parado, paradinho da silva... A sua agonia finalmente iria terminar, tudo estaria resolvido, molhado mas contente, esqueceu-se do resto do mundo... Quando era pequeno... quando era pequeno sua mãe sempre lhe dizia para olhar os dois lados ao atravessar a rua.... A sua agonia finalmente terminaria antes que o relógio Casio totalmente falsificado terminasse de apitar as quatorze vezes que indicam duas da tarde. Choro para os familiares, matéria barata para os jornais de tevê locais. No outro dia provavelmente alguns inda se lembrariam: “Ei, o negócio do rapaz foi mesmo aqui, o rapaz de ontem no jornal...” No mais, porém, tudo iria voltando ao seu normal e a rotina de uma cidade de porte intermediário retomaria como se nada tivesse acontecido. E o material? Ah, alguém insiste em perguntar pelo material? O leitor irá concordar que o material é o que menos importa aqui.

2 comentários:

Fernanda Medeiros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda Medeiros disse...

Ótimo !!!

=D