quarta-feira, novembro 01, 2006

SUBSTÂNCIA LITERÁRIA Rafael Rubens de Medeiros

Nunca se soube ao certo o que é, como acontece, ou antes, o que proporciona. Mas é maravilhoso, é sinestésico. E de repente respondendo ao menor impulso da realidade sentimos aquele espetacular sabor de música na boca e o cheiro de poesia paira pelo ar... Acredito que todos, pelo menos em algum raro e imprescindível momento de nossa pacata e nada eterna existência já tenhamos sido invadidos por esse magnífico turbilhão de sensações. São os eflúvios, os arroubos da sensibilidade humana, instantes antes de se converterem em pura essência literária. Haja vista, haja sempre vista, que a substancia da literatura está presente na anima de cada um de nós.

“O termo literatura é mais uma dessas palavras impossíveis de uma conceituação uniforme, tal a polivalencia de sentidos com que é tomada não só no âmbito restrito das Belas Artes (com suas inúmeras teorias estéticas e escolas) como também nas conversas gerais da fala rotineira.” Quem disse isso foi Hênio Tavares, um das personalidades mais importantes do país quando o assunto é teoria literária. E é verdade. A dinamicidade semântica do termo em questão é muito mais profunda do que se imagina. Não dar agora para começarmos o conceito de literatura num universo restrito de algumas palavras. Deixemos que esse conceito emane de cada ser humano, idiossincrásico e absoluto, e antes de tudo, subjetivo.

Derramar a vida em ciscos alfabéticos (ou no caso mais do que contemporâneo de hoje, em links virtuais), eis o teorema daquele que dedica os preciosos minutos de sua passagem pela terra à missão de escrever literatura. E a literatura, embora advinda de cada um de nós, está onipresente em tudo que se passa em nossa volta. Devemos percebê-la e penetrá-la intensamente, com a mesma avidez de quem aspira o saudável aroma das flores da manhã...

É no indizível que ficam os melhores poemas. E no incompreensível que ficam os melhores realizáveis. E é em tudo isso que fica a verdadeira substancia literária. Poética, mágica, perfeita e imperfeita ao mesmo tempo, mas sobretudo plenamente ao alcance de qualquer ser humano. Revelando-se aqui e ali. Como os enigmas mais indecifráveis da Esfinge de Gisé. Eis, pois um jeito mimético de perceber as coisas, de olhar e de viver a vida. Portanto, eus-líricos de todo o mundo uni-vos! Literaturemos...

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