segunda-feira, outubro 30, 2006

O HERÓI DA PATRIA
João Paulo Medeiros Conta a tradição popular que, herói que se preze, é aquela criatura extraordinária, destacável entre as demais pessoas de sua época e realizadora de bons e inexplicáveis feitos. Pois bem. Porém verdade é que quase todas as coisas aqui viraram ao avesso. A sabedoria e a austeridade do povo deram lugar à insignificância e a mesquinhez de suas ações, fazendo surgir nas galerias históricas nacionais, figuras com atribuições heróicas distorcidas. Último de uma prole de quatorze, Aminésio é uma delas. Veio ao mundo por um acaso e à primeira vista dispunha de um estereótipo livre de qualquer peculiaridade excepcional ou elemento provindo da sobrenaturalidade. O divino o presenteou com modestos pouco mais de metro e meio, espalhados em músculos e pensamentos sonolentos e de pouca serventia. Do legado familiar, miserável conforme a sina de todas as outras famílias de sua terra, recebera o medo por temperamento, além de palavras e gestos descompromissados e sem esplendor. De anormais mesmo, somente feias espinhas no rosto e um captador de odores crescido, com orifícios carentes de limpeza e um lombo enigmático na parte superior; o que lhe garantia, compreensivelmente, distância e desafeto de todas as garotas de seu tempo. Não era Getúlio, mas tinha vocação política verde e amarela: mentia com desembaraço e, se pressionado, sempre se escapulia pela ignorância da maioria. Nunca folheara Machado nem Barreto, entretanto habitava as alturas a ponto de provocar inveja em Rubião e Quaresma. De Tiradentes herdara a teimosia e, como Rondon, ia e voltava incontáveis vezes de um recanto a outro, esbanjando um orgulho vazio em sua farda de recruta militar que era. Certa vez, durante uma dessas andanças, um de seus conterrâneos perguntou-lhe se já havia manuseado uma bazuca. “Sim”, respondeu sem arrodeios, “e de todos os tipos”, completou. Esquecendo-se que as altas patentes importaram há pouco tempo de uma quadrilha paulistana a primeira dúzia desse armamento, e que o quartel ainda aguarda a liberação de uma verba extra para só assim iniciar os treinamentos coordenados pelos companheiros do Marcola. Não há dúvidas que viverá longos e bem aventurados dias. Seguramente a ‘generosidade eleitoral’ do povo e a ‘magnificência’ de seu heroísmo lhe trarão fartura e dinheiro. Quando morrer – perdão, rico não morre, passa para uma melhor - seu nome estampará uma das plaquetas de rua da sua cidade. Abaixo dele, estará escrito: “Com suas realizações salvou a vida de multidões”. Na casa das demagogias municipais, seu corpo será velado como rei e sua trajetória consagrada e lembrada com menção honrosa para sempre.

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