Eus-líricos de todo o mundo, uni-vos... O espaço é este. Literaturemos...
AGORA DIGO EU
Afinal, o que é mesmo poesia?
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EM FOCO - ANA CRISTINA CÉSAR
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EM DIA COM A LITERATURA
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Auto-apresentação
Rafael Rubens
Professor de Literatura, poeta e escritor nas horas vagas e divagadas. Escrever é muito mais que um hobby ou uma paixão. É mais ou menos aquilo que o poeta Rainer Maria Rilke disse ao jovem Franz Xaver Kappus em sua primeira carta:
"Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? Sou mesmo forçado a escrever?' Escave dentro de si mesmo uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa com um simples 'sou', então construa sua vida de acordo com essa necessidade."
(Do livro Cartas a um jovem poeta)
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Terça-feira, Agosto 11, 2009
MEIO SEGUNDO ANTES DE SE JOGAR
Rafael Rubens de Medeiros
Semana passada jogou-se mais uma pessoa do Edifício Lucas, aqui mesmo no centro bem central de Campina Grande. Digo mais uma porque já não se conta mais nos dedos os tantos últimos passos que decolaram desesperados daquela varandinha discreta de décimo andar e voaram para se agarrar ao menos mais uma vez ao sabor invisível de liberdade que paira no ar e que lhes afagou os cabelos no momento decisivo do salto.
Soube que fora uma mulher dessa vez. Mas não sei sequer o seu nome, de onde era ou que motivos lhe impulsionaram a tão fatal impulso. Só lembro de uma pequena formação de pessoas já desfazendo-se no local e da notícia sensacionalista cortando o ar feito bala perdida.
Acho incrível como as pessoas costumam fazer alvoroço ante uma fatalidade como aquela. Nessas horas sempre me vem um aperto esquisito na garganta como se eu tentasse remoer minhas concepções acerca do sentido da vida, a mesma vida que acabou de se esvair ali em carne viva. Naquele momento, ali tão perto da tragédia não foi diferente. Confesso com algumas gotas salivadas de remorso que me vieram (não sei por que) aqueles tão famosos versos de Chico Buarque: “caiu na contramão atrapalhando o sábado...” Mas não era sábado como na canção, estávamos na verdade em um dia útil e não menos movimentado na cidade grande. Também não estou bem certo se havia contramão para se cair, uma vez que esta só existiria a partir de uma “mão”, algo tão metafísico e abstrato que eu não saberia definir bem o que é. Geralmente ficamos estáticos e sem mais reação ao nos darmos conta de que estamos diante do abraço incontido e inevitável da vida e da morte.
Não sei se a mulher que se jogou deixou alguma carta, bilhete, email ou scrap de Orkut despedindo-se e/ou explicando sua decisão, algo que as pessoas da família e os amigos leriam e com que chorariam muitas vezes até que o impacto da coisa fosse desvanecendo com o tempo. Sei apenas do fato e não tenho pretensão jornalística de noticiá-lo.
Fico imaginando a sensação terrível e voraz que é o chão chegando cada vez mais perto após um pulo sem volta, coisa que só ela poderia nos dizer se isso aqui fosse literatura e não a vida real. Às vezes acho comigo mesmo que uma pessoa sempre se arrepende no instante seguinte a um salto suicida. E me dá uma amargura inquieta a idéia de que não dá para saber se a mulher da semana passada se arrependeu ou não quando se jogou; no máximo para lembrar que ela virou matéria nos fadados telejornais locais da tarde e assunto corriqueiro para os curiosos que fazem ponto dia a dia no Calçadão.
Quero pensar que a última imagem que lhe veio tenha sido vívida reconfortante o bastante para amainar um pouco da angústia que lhe inundava o aflito de um coração a poucos segundos de parar de bater. Quero imaginar que a sua última recordação tenha voltado a uma infância de desaltultices e manhãs felizes de domingo para resgatar uma cena alegre e desproposital do cativeiro involuntário da memória, e que meio segundo antes de se fecharem para sempre seus olhos possam ter sorrido uma última vez.
Terça-feira, Agosto 04, 2009
BOLO COM GUARANÁ
Rafael Rubens de Medeiros
Falar em bolo com guaraná automaticamente lembra um monte de coisas: aniversário de criança, intervalo de reunião em que as pessoas não têm dinheiro pra comprar nada melhor, café da manhã dado em casa de político. O bolo e o guaraná são dois elementos que andam juntos com a história de cada brasileiro. Apesar do gostinho enjoado que num golpe de sinestesia chega a lembrar chá de boldo exagerado no açúcar, eu creio que todo mundo goste.
Eu lembro da minha primeira vez com essa iguaria um tanto quanto popular. O pedaço de bolo um tanto modesto no tamanho e puído e esfarinhado na substância rapidamente se transformou em umas poucas e recatadas migalhinhas de farelo na minha mão. Já o guaraná, que foi servido num daqueles copinhos descartáveis bem vagabundos em que geralmente se dá pinga aos bêbados, eu desci de uma só vez, em goles decididos e sincopados. Curiosamente eu me lembro desses detalhes com uma clareza impressionante. Até porque, o arroto depois foi uma maravilha...
Enfim. Bolo com guaraná me remete a um número incerto de lembranças e situações, mas certamente a melhor de todas elas foi a do semblante satisfeito e comovido do meu pai, que pagou paternalmente triunfante ao dono da barraquinha assim que eu arrotei aliviado. Tá, tudo bem, a situação pode até não ser charmosa nem nada, mas lembra até o conhecido episódio da “última crônica” de Fernando Sabino.
De lá pra cá já foram muitos copos e muitas fatias. Decididamente bolo e guaraná são duas coisas que se combinam e sua combinação vem marcando gerações e mais gerações. As bolhinhas do gás do refrigerante e o guardanapo (sempre meio grudado e contaminado com a umidade) que envolve o bolo parecem detalhes de uma coisa só. Falando nisso, já faz até um tempinho que eu não degusto do sabor nem observo de perto os supracitados detalhes. É, acho que tenho que parar de dar cano nas reuniões do trabalho.
Seja em dias nublados ou com sol, entre um papo furado e outro um guaranazinho e um pedaço de bolo sempre vão bem. Afinal, parafraseando (e adaptando) o dito popular, bolo com guaraná podem até não ser caldo de galinha, mas com certeza não fazem mal a ninguém (a não ser que a pessoa sofra de diabete, gastrite em último grau ou coisas do gênero...)
Quarta-feira, Julho 01, 2009
CAMINHOS QUE SÓ CAMINHONEIROS FAZEM
Rafael Rubens de Medeiros
Todo mundo tem um amigo caminhoneiro. E se há ainda alguém que não tenha é bom saber o quão é interessante e construtivo ser amigo de um. Caminhoneiro não é só uma profissão, é um romper indelével de quilômetros, saudades e sonhos. Como me disse uma vez um velho caminhoneiro, a estrada nunca é apenas um caminho a ser percorrido; é a sua amiga e confidente, quiçá sua melhor companheira de viagem.
A cabine de um caminhão torna-se, com o tempo, mais do que a residência ambulante do seu condutor, ela vira uma parte de si mesmo. Pode reparar que um caminhoneiro não consegue passar muito tempo longe do seu caminhão.
Eu lembro do caso de Seu Joel que, depois de 37 anos de rodagem e dono do seu próprio caminhão não se acostumava mais em passar nem que fosse um dia distante de sua máquina. É um lance de paixão mesmo. Ser caminhoneiro é bem mais do que dirigir um veículo longo. Uma vez caminhoneiro, torna-se cúmplice do volante e amante do retrovisor esquerdo. É um silogismo fácil: o Brasil escolheu as rodovias; as rodovias escolheram os caminhoneiros.
O mais interessante é que, por menos escolaridade que possa ter, todo caminhoneiro é detentor de uma riquíssima sabedoria. E de fato, como não haveria de ser, se eles são formados na maior de todas as faculdades, a vida e os seus caminhos nem sempre bem sinalizados? Uma vez um desses sábios da estrada que transportava uma carga de botijões de gás num trucado vermelho de 10 rodas me contava sobre suas inúmeras viagens. O Brasil é muito maior do que aquilo que a gente vê no mapa – ele me dizia com o semblante sereno e o olhar atento no pára-brisas. Falou-me de uma ocasião em que dirigira por 16 horas seguidas q quando finalmente parou para dormir num desses postos de beira de estrada não tinha feito nem metade do caminho ainda. Pois é. Do Rio Grande do Sul ao Maranhão vão mais léguas do que nossas saudades podem suportar. O Brasil não é apenas grande. Ele também é vasto. É você sair do Nordeste com uma carga de macaxeira e descarregar aipim em Santa Catarina. Os caminhos envolvem nuances.
O caminhoneiro não conhece apenas o Brasil. Conhece também o brasileiro. Cada jeito de ser, de se expressar de cada canto do país vai ficando gravado na memória que nunca se cansa desses peritos da estrada. Uma carona dada ali para encurtar o caminho, uma parada ali para rebocar um companheiro que ficou quebrado na beira da estrada. Vida de caminhoneiro não é fácil. Haja coragem e determinação para viajar por estradas tortuosas fazendo-se disso o buscar do pão de cada dia. Haja solidariedade para parar às quatro da manhã e tirar do prego aquele estranho que pode muito bem ser um daqueles famosos ladrões de carga, mas que também pode ser alguém como você, humilde e de boa índole, e se encontra parado no acostamento com o olhar desesperado e o coração palpitante à espera de uma assistência milagrosa. Haja sensibilidade e bom humor para poetizar os pára-choques e maravilhar os olhos de quem tenta ultrapassar na curva: “A saudade é companheira de quem não tem companhia.”, "Mulheres existem para serem amadas, não para serem entendidas" “Antes eu sonhava, agora eu nem durmo”, “Guarde seu silêncio, para que não fique escravo de suas palavras”. E por aí vai...
O caminhoneiro é, antes de tudo, um forte, permitam-me parafrasear o rodado clichê euclidiano. Sua força reside na simplicidade honesta do trabalho, na ânsia de chegar em casa e matar a saudade da família num abraço apertado, no peso da responsabilidade muito maior do que a carga de várias toneladas atrás da cabine. Que esses mestres da estrada continuem por muito tempo cumprindo sua função, que é muito mais do que conduzir um caminhão na rodovia. Que Deus ilumine cada vez mais os caminhos daqueles tem a missão de movimentar de verdade o comércio do nosso país.
(Esse texto é dedicado a Toinho de Totó, o cabra mais homem que desbrava os recantos desse Brasil velho ao volante de um caminhão Volkswagen Constelation. Toinho Pequeno, como é conhecido, além de exemplo formidável de ser humano, é o melhor amigo caminhoneiro que eu posso dizer que tenho...)
Quinta-feira, Junho 11, 2009
QUANDO
Rafael Rubens de Medeiros
Quando eu era pequeno, gostava de observar os carros que passavam na estrada. Meu irmão e eu acompanhávamos com a vista até eles sumirem pequeninos e barulhentos num horizonte rarefeito e poeirento. Depois eu construía meus próprios veículos de caixas de remédio e brincava com eles na réstia da telha. Tinha uma das caixas de remédio que ofuscava uma luz azul belíssima. Acho que o medicamento se chamava Gleran, mas na minha imaginação era muito mais do que aquilo. Dizem que criança pobre tem mais imaginação do que criança rica. Talvez seja verdade. Alguma coisa a gente tem de ter mais...
Uma imagem costumava visitar meus sonhamentos: a de uma descida numa serrinha, típica paisagem rural do Nordeste brasileiro, uma estrada de barro que passava em frente a uma casinha modestamente modesta. Confesso que até hoje inda me pego pensando naquele lugar. Era como se eu o conhecesse, sem jamais tê-lo visto na minha vida. Mas crianças são assim mesmo. Não apenas pensam, não apenas imaginam. Elas vivem o lado fantástico da vida. Por isso a vida parece fazer mais sentido.
Quantas vezes me imaginei adulto, quantas vezes quis que o tempo passasse mais depressa para que eu chegasse a vivenciar as possibilidades que tanto formulava em minhas expectativas pueris! Hoje, depois de um quarto de século deixado para trás percebo que os verbos conjugados no futuro só têm relevância depois que saem do subjuntivo. É a gramática sem nexo da vida.
Advérbios de tempo sempre me chamaram a atenção. Gostava particularmente dos “desdes”, “enquantos” e principalmente, dos “quandos”. Era como se eles tivessem a capacidade de recortar retalhos de vida e de tempo. Eu lembro do dia em que meu pai completou setenta anos. Ele acordou mal-humorado e pronunciou: “Estou com setenta anos! Estou velho e imprestável. E saber que parece ser ontem que eu era um menino que corria para todo canto.” Naquele dia eu percebi como retrospectivas podem ser cruéis, dependendo do ponto de vista.
É simples pensar que tudo é uma questão de revisitar com outros olhos aquilo que já fomos. Mas o tempo. Ele faz muito mais do que simplesmente passar. A vida. Ela é muito mais do que um simples envelhecer de células.
Quando finalmente compreendemos aquilo que significa ser adulto, um homem ou uma mulher com algum nível de maturidade considerável, tudo o que ansiamos é a alternativa aparentemente impossível de voltarmos a ser criança. A idéia não é voltarmos no tempo, isso contrariaria inúmeras teorias físicas e astronômicas. É abraçarmos aquela criança dorme no âmago de cada um de nós, louca para ser redespertada. Nossos sonhos não morrem. A distância entre os sonhos e a realidade está na disponibilidade simples de se abrir ou fechar os olhos. E quando se é criança se entende isso muito mais facilmente. Eu lembro que ficava observando os raios de sol da manhã só para que a claridade ofuscante do nascer do dia brincasse com minhas retinas. Então ilusões de óticas transparentes e intrusas desciam do céu como que de pára-quedas e se multiplicavam, ganhando significações e contornos diversos. E mais uma vez se aplica aquela teoria das imaginações das crianças mais pobres. Do que adianta comprar diversões caras se o mundo inteirinho convertido nas belezas acessíveis ao olhar pode ser nosso melhor brinquedo?
Quando por acaso vejo alguma criança bem pobre brincando feliz e radiante, fico pensando no mundo um milhão de vezes melhor em que sua imaginação embarca. Nessas horas umas pontadinhas de ternura são inevitáveis. Então prefiro calar minhas concepções empalidecidas de adulto que finalmente absorveu a suposta face real das coisas da vida. E penso que os sonhos que eu sonhava quando era pequeno não são tão longínquos assim. Na verdade eles são meus melhores impulsos. E eu acho que jamais podemos perder nossos impulsos de vista. São eles que dão um colorido especial ao desbotado de nossas vidas manipuladas. Mas afinal, qual é a melhor hora de recorrermos a eles? Que tal agora mesmo? É só saber procurá-los no lugar certo. E o lugar certo é na simplicidade do olhar de uma criança.
Aquele era com certeza o pardalzinho mais bonito que já vira em sua vida toda. Pardalmente tranqüilo, beira-da-estradeava ali, assim, sem se preocupar com o resto alucinado do mundo que adormecia adulto lá fora. Sabrina não queria dormir. Era melhor ficar observando as cotidianices da vida que malabarismavam além da quadrática e miúda janela da ambulância. Eram tantas coisas, tantas... Como alguém pode deixar desmaiar sua sensibilidade e fingir não percebê-las? E as casinhas de taipa a cumprimentavam. Meu Deus, como elas são singelinhas. O homem que carregava aqueles quatro paus de lenha no ombro jamais iria supor que um dia fora refletido naqueles olhinhos marejados que passavam fotografando vida a mais de 120 quilômetros por hora. Tudo pode estar absolutamente tão perto... O menino que carregava a carroça de mão não era forte nem fraco, negro nem branco. Mas lhe lembrou profundamente aquela tardezinha de sol poente já longínqua em que descobriu como se sorri com o coração e se diz tudo sem se pronunciar palavra alguma. Ele teria nome? Ficava...
Sabrina pensou por um instante no efêmero das coisas. Quem foi mesmo que inventou esta história de contar o tempo? Nas aulas de Física falaram em frações de segundo. Só não tiveram tempo de dizer que os segundos também são frações de algo muito, muito maior. As pessoas vivem tão ocupadas... Já reparou que quando se é criança o dia parece ser muito maior? É que vivemos a essência dos segundos, não a pressa atribulada dos anos. A ambulância também parecia ter pressa e engolia o asfalto em goles grandes. Sabrina tinha catorze anos e, como afirmaria a máxima universal, uma vida inteira pela frente.
- Sinto muito. É câncer.
- Não pode ser, doutora. Minha filha só tem 13 anos de idade.
- Infelizmente, minha senhora, o câncer não escolhe cor, idade, sexo nem posição social. Dois exames não podem estar enganados. Sabrina tem câncer no canal vaginal.
- Como pode ser isso, doutora? Minha filha ainda é virgem e tudo! - D. Jailza pronunciara estas últimas palavras como o argumento mais potente e desesperado que lhe forneceu sua bagagem de senso comum.
- Minha senhora... O fato de ser virgem ou não não quer dizer nada. Na verdade, o câncer no canal da vagina ocorre em virtude de uma predisposição cancerígena das células que se desenvolvem nessa região, independentemente das atividades sexuais da pessoa...
Aquelas explicações altamente científicas e técnicas não explicavam nada para D. Jailza. Ela não queria acreditar que sua única filhinha fora acometida daquela enfermidade letal e irreversível.
- Diz que não é verdade, doutora. A bichinha só tem treze anos de idade. Ela não merece isso não...
E na verdade alguém merece? – perguntava em baques surdos e descompassados o lado menos egoísta do coração de mãe de D. Jailza.
A ambulância era por demais apertada. Cabia apenas mais uma pessoa sentada do lado da cama. Mas Sabrina já era acostumada com a situação, e quando a dor amainava ela até se divertia, brincando com a ventoinha. Por vezes mirava os olhos para o teto por pedaços consideráveis de tempo, como quem vislumbra algo bem mais longe e muito mais além. Era nesses momentos que os seus olhinhos adolescentes suavizavam a expressão e marejavam um sorriso interior. E Sabrina retrospectivava suas melhores fatias de vida vivida. Engraçado que quando se olha pro nada em nada é a única coisa em que definitivamente não pensamos.
Sabrina lembrou do dia em salvara um gatinho lá na escola juntamente com duas de suas colegas de oitava série. O bichinho era cego e estava encurralado por dois cachorros num recantinho estreito do pátio do colégio. Elas espantaram os cachorros e resgataram o pequeno felino, arisco a princípio, mas que logo logo já ronronava eufórico e agradecido nos colos das meninas. E Sabrina amou-o de imediato, levou-o para casa, alimentou-o e batizou-o de Pitico. Mas quando seu pai chegou em casa não permitiu que Pitico ficasse, para tristeza de Sabrina. “Ora, minha filha, esses animais só servem para passar impinge pra gente”. E Pitico foi recolocado na rua, afastando-se a contragosto, tímido e devagar até sumir pequenininho na última esquina. Meu Deus, como Sabrina chorou naquele dia. Depois disso, ela jamais quereria um animal de estimação novamente.
Outra vez fora flagrada colando na prova de Geografia. Fusos horários. Assuntinho mais chato. E daí se de Brasília a Sidney na Austrália vão 11 horas de diferença? Bah! Trivialidades, desimportâncias. Pra que afinal perder tempo estudando aquilo, quando muito mais divertidos e interessantes eram os seriados na TV? Não havia estudado e pronto. Agora o negócio era mover os pauzinhos na hora da prova. Só que o professor Roberto não deu mole não. E quando Sabrina achou de trocar as folhas de resposta da prova com a colega ao lado, percebeu tardiamente que sua ação desexemplar de aluna estava sendo observada. Ainda tentou disfarçar, mas não tinha mais jeito. Foi zero nas duas sem direito a recuperação. Um total desastre. Como explicar isso em casa? Sabrina podia imaginar a cara de D. Jailza quando ela recebesse o boletim para assinar. Estava até o pescoço encrencada. Isso merecia vingança.E ela veio no mesmo dia. Pobre do professor Roberto, tão atento para com a fiscalização das provas em sala, tão descuidado para examinar sua moto antes de dar partida! Sabrina e sua companheira de cola haviam travado a roda dianteira da motocicleta amarrando arames nos raios. Quando o desatento e apressado professor deu partida, engatou a primeira e arrancou o desmantelo já tava feito. Pois foi. Newton estava mais do que certo quando defendeu a teoria da inércia. Que queda medonha! O professor Roberto passou por cima dos guidões e desabou com todo corpo no chão. O estrondo no calçamento foi tão grande que todo mundo no colégio correu para olhar o que era. A gurizada ria que se acabava, mangando e fazendo algazarra. E o coitado do professor Roberto, humilhado, levantava-se a custo, batia a poeira e tentava recolher seus papéis que haviam se espatifado na calçada. Enquanto isso, Sabrina lavava as mãos na pia do banheiro feminino com o coração sereno e a consciência mais limpa do mundo. Lá fora, os ânimos cada vez mais exaltados. Tinha de se achar o culpado de uma brincadeira de tão péssimo gosto. “Brincadeira não, isso é atitude de marginal!” – bradava o diretor, esquecendo-se das máximas pedagógicas que aprendera há muito tempo na faculdade. Então. O tempo vai passando e amnesiando um pouco um fervor dos acontecimentos. Muito embora a direção tivesse empenhado sua palavra, o tal culpado jamais seria descoberto. E apesar de algumas pessoas afirmarem de fé e verdade que haviam visto Sabrina rondando por perto da moto do professor, ela estava livre de suspeitas. Não, Sabrina não. Uma menina tão meiga, tão comportadinha... Sabrina recordava este fato hoje com uma pontinha de remorso, mas ao mesmo tempo acompanhada de uma onda de alegria travessa e jovial que lhe trazia um brilho intenso, insistente no olhar. Brilho de vida. Nem que fosse resgatada aleatoriamente na memória. Sabrina se lembrava. Viver era bom. E já havia sido muito, muito melhor.
- Você está passando bem, minha filha?
- Tô sim, mãe.
- Ficou calada de repente.
- Tava só pensando.
- Pensando em quê, posso saber?
- Na vida, mamãe. Na vida.
- Na vida?
- Sim, mamãe. Olha, olha! O bezerrinho!
- Bezerro? Onde, menina?
- Pela janela, olha!
- Ah sim. Tô vendo. O que tem de tão especial nele?
- Tudo, mãe! Olha como ele é lindo! Escaramuçando todo alegre, olha!
D. Jailza olhou. E pensou na vida também. O semblante e a alma ficaram mais leves. Aquele bichinho saudável todo cheio de energia. Tão novinho. Aquele sabor otimista que tem todo começo. Depois pensou na situação da filhinha e entristeceu-se um pouco. Por que com ela? Por que com sua única filhinha? Então pensou novamente no bezerrinho saltitante e o coração se mais uma vez encheu de esperanças. Ah, Sabrina também havia de ter o seu novo começo. Havia sim. Porque quando se crê em Deus não falta mais nada.
- Ainda falta muito, mãe?
- Anh?
- Quanto tempo ainda pra chegar?
- Ah sim. No máximo mais meia hora, minha filha.
- Que bom. Já tá me dando câimbra ficar deitada o tempo todo...
Aquelas viagens aconteciam geralmente nas segundas feiras e haviam se tornado comuns na vida de Sabrina. Desde que o câncer fora diagnosticado, naquela tarde enubladada de quarta. O pior que Sabrina achava naquilo tudo era ter de acordar às três da manhã. “Sabrina, minha filha, acorde, se lembra que hoje vamos no hospital de novo...” Sem falar que tinha vezes que a estrada parecia ser muito mais longa. E parecia que não iria se chegar nunca. Mas a estrada era sua metáfora.
As seções de quimioterapia eram a parte mais difícil do tratamento. Tudo era muito cansativo, dolorido. Nesses períodos, Sabrina ficava muito fraca, debilitada. Sentia como se seu organismo jovem estivesse envelhecendo antes do tempo. Fastios freqüentes, gosto de desmaio na boca. D. Jailza mesma estranhou muito no dia em que Sabrina recusou umas colheradas de doce de caju após um almoço de tímidas beliscadas no prato e poucas palavras à mesa.
- Seu doce preferido, meu amor... Comprei só porque sei que você gosta muito.
- Deixe aí, mãe... Tô sem vontade.
- Está certo, querida. Vou deixar aqui, tá bom? Se você quiser é só dizer.
Aquela foi a primeira vez que D. Jailza não pôde abafar a sua tristeza e deixou escapar alguns soluços amargos e entrecortados. Dizem que coração de mãe sofre em dobro as dores de sua cria. E sua menininha tava tão doentinha. Mas sobretudo nessas horas D. Jailza sabia que tinha de ser forte. Não queria jamais que Sabrina lhe visse chorando. Isso faria Sabrina sofrer ainda mais. E a pobrezinha já sofria o bastante, acometida por aquela doença dos infernos. Por isso quando o choro vinha D. Jailza trancava-se no banheiro e escorria suas lágrimas doídas e soliloquiadas pelo ralo da pia.
Quando seus cabelos caíram, Sabrina entristeceu ainda mais. Sentiu-se feia, cadavérica. Cada fio que ficava no pente ia desmatando suas melhores esperanças de cura. Era como se seus cabelos representassem uma parte sadia de si. Fiapinhos de vida que iam diminuindo cada vez mais. A primeira vez que inventou de sair na calçada de casa os pivetes na rua insultaram, fizeram pilhéria, zombaram. E a garotinha, careca, rapidamente se recolheu, de olhar cabisbaixo e ego machucado. “Como é que tem gente que tem coragem de fazer piada de um caso de doença? Rir da desgraça dos outros?” Sabrina lembrava de sua turma do colégio, que sempre dava um jeito de fazer brincadeira de tudo. Vieram-lhe umas pontadinhas de saudade. Como fora difícil não estar com eles este ano. Eles já estavam no primeiro ano. Sabrina sozinhava refletindo. Seria tão bom estar também no primeiro ano e não num talvez último. Mas a estrada. Nem sempre as porteiras estarão abertas...
Os ponteiros do relógio já iam apontando quase sete da manhã. A ambulância agora reduzia um pouco. A paisagem começava a ficar urbana e barulhenta. Sabrina percebeu que estavam chegando.
- Feche a janela, mãe, está ventando.
E ficou absorta por mais alguns instantes contemplando seu próprio reflexo que dava no vidro da janela da ambulância. Lá estavam seus olhos, marejados e abatidos, mas também vivos e esperançosos. Na janela que dava para o horizonte Sabrina contemplava agora as janelas subjetivas de sua própria alma. Depois fechou-as tambéme ficou pensando baixinho. Até quando “viver é melhor do que sonhar”? Seria bom se o mundo fosse como cada um sonhasse. E Sabrina sonhava. Quereria um mundo quase igual, mas se fosse possível, um mundo sem dores nem quimioterapias. Sim... Seria muito bom. Pensar nisso aquietava seus maiores medos, aqueles que às vezes lhe visitavam e afligiam durante a noite. A cura do câncer. Os médicos na TV afirmavam que ela estava próxima, era só uma questão de tempo. Mas isso também era só um palpite. E palpite por palpite, Sabrina preferia ouvir os do seu coração.
Segunda-feira, Dezembro 15, 2008
RETROSPECTIVA
Rafael Rubens de Medeiros
Os passos que dei
e os que hesitei desconfiado
foi que persuadiram meu futuro.
É mesmo impressionante como levamos em conta o tempo cronológico das coisas. Uma hora, um minuto, um segundo, um momento; tudo é profundamente determinante no apressado e efêmero das nossas vidas...
Sempre me surpreendo quando começo a pensar no que se perpassa dentro do espaço ao mesmo tempo trivial e mágico de 365 dias. O número de dias nem é exato, haja vista que os bissextos acrescentam mais um à sua contagem, mais uma estrofe às suas epopéias. Diante do dezembrar de mais um dezembro é natural que pensemos nos passos que demos até chegarmos ali, e miremos de maninho pelo retrovisor das nossas saudades e lembranças esquecíveis.
Mas deixemos a metafísica um pouco de lado por aqui. Sejamos pragmáticos. Por exemplo: você é capaz de se lembrar ao certo dos pensamentos, perspectivas e objetivos que principiaram em você junto com janeiro deste (ainda corrente) ano, a expectativa que seu olhar denunciava? Como estão em meados de dezembro as sementes que seus sonhos plantaram no começo de 2008? Frutificaram?
Durante o intervalo de um ano acontece um mundo de coisas no mundo. O mundo vai mudando à medida que vamos mudando junto com ele. Tudo é simples e natural, por isso Oswaldo Montenegro tem mais do que razão em seu poético aforismo “faça uma lista dos sonhos que tinha, quantos você desistiu de sonhar?” definitivamente tudo converge, tudo passa e compassa no movimento de translação dos nossos próprios passos.
Eu fico pensando nos meus projetos que não vingaram em 2008, nos poemas que eu nunca consegui dar um final, ,as “utopias nocauteadas no meio do caminho”. Lamentando por não ter feito aquele sorriso sorrir, por desacelerar a adrenalina daquele coração enamorado ansioso de futuro. Agradecendo pela possibilidade que tive de reconfortar, mesmo que virtualmente, aquele outro coração que sofria caladinho com a possibilidade de perder seu ente mais querido e biologicamente mais próximo.
Não dá para se descrever em minúcias, em palavras menos ainda, as sensações que um ano inteiro nos proporciona. Não dá para externalizar verbalmente a saudade insistente daquela garota incrível que justamente este ano foi morar nos Estados Unidos, nem para definir a magia dos momentos de outrora em que dividíamos entre outras coisas poesia e sonhos. Definitivamente não calculamos as horas e os dias de um ano na calculadora.
Fazer a retrospectiva de um ano, este retalho de vidas justapostas num espaço temporal de 365 dias, é reabrir aquele velho álbum de fotografias e sentir aquele mesmo cheiro nostálgico de vida – que passou, que passa, e que sempre passará (trilogia que apenas atesta a sua constante continuidade).
Um ano passa rapidinho, por isso às vezes temos a impressão de que os ponteiros do relógio estão mais rápidos ultimamente. Tenho certeza de muitos que estão terminando esta leitura (ufa, finalmente!) já estejam sentindo por estas alturas aquele sabor de ano que passou. Talvez porque esse sabor seja sempre evidente em dezembro. Eu prefiro o sabor do sorvete que a persistência da minha memória e eu dividimos lá por fevereiro. Porque o sabor da felicidade é atemporal e se se mede é na certeza de uma próxima vez. Afinal, um ano só termina na perspectiva do nascer de outro. Que venham novos sonhos, novos olhares, novas descobertas.
E que no momento em que 2008 subir ao altar e balbuciar o seu “sim” para 2009, eu tenha na boca essa mesma sensação e recomeço para murmurar convenção-socialmente “um feliz anos novo a todos!”
Quinta-feira, Dezembro 04, 2008
CARTA PARA PAPAI NOEL
Rafael Rubens de Medeiros
Querido Papai Noel
Faltam apenas (ou ainda, não sei) 21 dias para o natal. Há quem diga que esta é a época mais linda do ano e o meu intento aqui nesta carta não será o de jamais discordar de tão observadoras pessoas. Eu também me encanto com todas aquelas luzes, toda aquela neve artificial que não tem nada a ver com a nossa realidade tropical e com as músicas suaves que as lojas colocam para tocar. Agora há pouco, por exemplo, quando voltava da padaria reparei que o posto de gasolina aqui de perto de casa tinha colocado um belo enfeite de natal em que estão o senhor e suas renas logo acima da expressão “Merry Christmas” (assim em inglês mesmo). Confesso que adorei o anglicismo. E, com toda sinceridade, quero entendê-lo muito mais como uma marca cultural positiva da globalização que como apologia barata ao imperialismo norte-americano. Definitivamente o natal é uma época do ano que nos faz refletir um bocado. Por exemplo, por que, com tantas evidências cabais e incontestes, ainda há pessoas céticas ao ponto de acharem que o senhor não existe? Essas pessoas só podem não andar pelas ruas na época do natal... Sabe, Papai Noel, eu ainda não sou pai nem nada, mas no dia em que eu tiver um filho e ele perguntar se o senhor existe, eu responderei com todas as letras: “Papai Noel existe sim, meu filho.” Ele surgiu não lá do Pólo Norte (lugar frio da mulesta), mas da necessidade de lucro capitalista e do comércio que sempre esquenta em tempos de se receber décimo terceiro.
Posso te contar um segredo, Papai Noel? Tinha um tempo que eu detestava o senhor. Dizia que o senhor aparecia para uns meninos e outros não. Essas coisas de quem não sabe o que diz nem diz o que sabe... O senhor me entende, não entende? Infância pobre do sertão, menino que dormia de rede. Eu não poderia exigir tanto da solidariedade do senhor e da precisão geográfica de radar das suas renas. Não era o senhor que me deixava de fora, como eu por pueris vezes cheguei a pensar. Hoje compreendo que eu é que não estava de dentro. Por isso não entendia; por isso me acostumei a passar os natais sem a magia midiática dos seus “ho ho hos....”
Esta carta, Papai Noel, tem dois propósitos: o primeiro e mais imediato deles é pedir desculpas pela vez em que fiz um gesto obsceno para o senhor lá na rua Maciel Pinheiro após receber o seu sincero voto de “Feliz Natal, ho ho ho!” o segundo propósito diz respeito ao meu pedido de natal. Trata-se de algo muito simples. Eu apenas gostaria que neste ano as pessoas vivessem o natal por aquilo que ele realmente, historicamente significa: a comemoração pelo nascimento do salvador da humanidade. Quer dizer, Papai Noel, eu imagino que o senhor deva ser cristão também... Por isso mesmo eu gostaria que a fraternidade natalina se desse nas pessoas tornando-as mais solidárias e humanas umas com as outras, e menos hipócritas nos troca-troca de presentes de promoção de queima de estoque. Enfim, Papai Noel, não estou querendo desconstruir o ideário da nossa cultura ocidental, apenas desejando que este ano todos vivamos o verdadeiro espírito natalino. Que todos tenhamos um feliz natal, mas acima de tudo um natal de verdade. Em que as pessoas lembrem-se de Cristo e conseqüentemente do verdadeiro sentido de se comemorar o natal, apesar das preocupações, das dívidas, das injustiças sociais. Um feliz natal para todos, mesmo para quem não tenha cinco centavos para dar um big-big de presente. E um feliz natal para o senhor também, Papai Noel. Pode ficar em casa este ano. Tenho certeza de que o senhor (não mais que o resto do mundo) merecerá este descanso e, por assim dizer, este legítimo e descapitalista presente de natal.